Por que a mesma coleção falta num tamanho e sobra no outro
Uma loja de roupa ou calçado termina a coleção sem os tamanhos que vendem e cheia dos que ninguém quer. Veja como comprar e distribuir por tamanho de um jeito que resolve os dois problemas juntos.
Alexandre Caramaschi
Founder da Brasil GEO, ex-CMO da Semantix (Nasdaq), cofundador da AI Brasil
Olhe o estoque de qualquer loja de roupa no fim de uma coleção. Os tamanhos M e G do modelo que vendeu bem sumiram em três semanas, e quem chega depois vê "esgotado".
Cenário: numa loja de vestidos, os tamanhos PP e GG sobram parados e vão para a liquidação com desconto grande. Em calçado, a mesma cena troca letra por número: falta o 38, sobra o 34.
A loja costuma culpar a falta de interesse do cliente. Mas o problema está em como você dividiu essa compra entre os tamanhos.
Por que a mesma coleção falta num tamanho e sobra em outro?
A venda de uma peça não se espalha igual entre os tamanhos. Na roupa, a maior parte da venda de um modelo fica em só dois ou três tamanhos, geralmente M e G.
Em calçado, essa concentração é ainda maior. Os números do meio, como 37 a 39 no feminino, vendem muito mais do que os números das pontas, como 34 ou 45.
Quando a compra trata todos os tamanhos como se vendessem igual, ela garante dois problemas ao mesmo tempo. Falta nos tamanhos centrais e sobra nos raros, antes mesmo da coleção chegar à loja. Boa parte do estoque de moda não é vendida até o fim da temporada. Precisa ser liquidada com desconto pesado, mesmo com falta nos tamanhos que mais vendem.
O tamanho do erro de grade
O que corrige isso por trás da loja?
Resolver isso começa no cadastro. Cada produto precisa ter o tamanho e a cor escritos sempre do mesmo jeito, sem variação de nome. O guia cadastro central de produto trata dessa disciplina, que falta em boa parte das lojas brasileiras. Sem esse cadastro certo, é impossível saber quanto cada tamanho realmente vende, e a reposição vira chute.
O segundo pilar é o sistema que organiza os pedidos (OMS). Ele precisa reservar o tamanho certo no momento da compra, e não uma peça parecida, porém diferente, o que empurra a devolução para cima. Mostrar o estoque por tamanho com precisão impede vender um tamanho que não existe.
Os dois pilares do backend de grade
- 1Cadastro de grade limpoGrade formalizada, cor padrão e cor comercial, atributos consistentes. Sem isso, a curva real por tamanho e cor não se calcula.
- 2OMS que reserva a unidade corretaEstoque segmentado refletido com precisão impede vender um tamanho que não existe.
Onde a venda se concentra na grade
- Moda: 2 a 3 tamanhos (M e G) concentram a venda60 a 70%ABIT, 2022
- Estoque de moda não vendido ao fim da temporada20 a 30%McKinsey, 2022
- Devolução de calçados online por ajuste de tamanho>20%McKinsey/Euromonitor, 2021 a 2023
Quanto pesa a venda de roupa e calçado on-line no Brasil?
A venda de roupa on-line é a maior categoria do comércio eletrônico brasileiro em valor, girando na casa de dezenas de bilhões de reais por ano.
A moda é um pilar histórico do varejo brasileiro, com o setor de vestuário movimentando centenas de bilhões de reais por ano. No digital, roupa e acessórios lideram em número de pedidos entre as categorias de e-commerce, com crescimento constante ano após ano.
Calçado vende menos em valor do que roupa, mas em grande volume de pares, e representa uma fatia relevante dos pedidos de lojas on-line no Brasil. Os dois crescem porque o cliente confia cada vez mais em comprar roupa e calçado pela internet.
Moda e calçados em números
| Indicador | Moda/vestuário | Calçados |
|---|---|---|
| Varejo / produção (2022) | ~R$240 bilhões em vendas (IEMI) | ~837 milhões de pares, ~R$30 bilhões na indústria (Abicalçados) |
| Volume físico | ~6,4 bilhões de peças/ano (IEMI) | ~720 milhões de pares consumidos (Abicalçados) |
| Participação no e-commerce | ~18 a 20% dos pedidos (NielsenIQ|Ebit, 2023) | ~5 a 7% dos pedidos (Neotrust, 2022) |
| Ticket médio online | ~R$160 a R$180 (NielsenIQ|Ebit, 2023) | ~R$150 a R$220 (Neotrust, 2022) |
| Dor de grade dominante | Cauda longa de SKUs, coleção de vida curta | Numeração central concentrada, extremos sem giro |
Ruptura é venda que você não fez. Sobra é margem que você queimou na liquidação. As duas nascem do mesmo lugar: uma grade comprada sem olhar para a curva de quem compra.
Por que a devolução de calçado atrapalha ainda mais o estoque?
O calçado tem uma dor que a roupa sofre menos: o ajuste do pé só se sabe depois de calçar. Por isso a devolução por tamanho errado é comum em lojas de calçado on-line.
Pesquisas do setor apontam devolução de calçado on-line frequentemente acima de 20% em mercados maduros, boa parte por tamanho e conforto. No Brasil, lojas com troca facilitada costumam ver números parecidos.
Isso cria uma falta de produto que não é real. O par devolvido demora para voltar ao estoque disponível. O sistema mostra "esgotado" um número que está, na verdade, sendo conferido no depósito, tema do guia devoluções, trocas e o caminho de volta do produto. Quando o sistema do estoque e o sistema dos pedidos não conversam direito, essa demora aumenta. O cliente que sempre ouve "não tem o seu número" para de voltar.
O caminho do par devolvido
- 1O par voltaA logística reversa recebe a devolução.
- 2InspeçãoItem como novo volta ao estoque vendável; peça com sinal de uso é segregada.
- 3ReintegraçãoOMS, WMS e ERP precisam conversar para o saldo voltar rápido.
- 4Disponibilidade publicadaSem reintegração, o sistema mostra esgotado um número que está na mesa de inspeção.
Os tamanhos raros das pontas vendem pouco, mas a falta deles frustra clientes específicos. Ter esses tamanhos em excesso é caro; não ter nenhum custa clientes fiéis. A saída não é estoque infinito, é distribuir bem entre lojas e canais.
O que decide se a peça certa chega para o cliente certo?
Duas coisas decidem se a peça certa chega ao cliente certo. Quanto e o quê comprar por tamanho, e o que a busca do site mostra primeiro. Errar qualquer uma transforma estoque correto em venda perdida.
A primeira parte é comprar e distribuir certo. O guia sortimento, alocação e disponibilidade trata de como transformar a previsão de venda em compra e distribuição por tamanho, loja e canal.
Juntar o estoque de todos os canais numa conta só reduz bastante a falta de produto. Em vez disso, muitas lojas tratam cada canal como uma ilha separada. Contar peça por peça com uma etiqueta especial (RFID) deixa esse número muito mais certo do que a contagem manual. O custo ainda limita o uso entre lojas pequenas no Brasil.
A segunda parte é a vitrine, tema do guia como organizar a busca da loja. De nada adianta ter o tamanho certo no estoque se a busca do site não mostra esse produto. O mesmo vale se a busca empurra para a frente um produto sem o tamanho certo.
Prever a venda por tamanho e cor com antecedência reduz falta e sobra ao mesmo tempo. Mas sem um histórico de dados limpo, essa previsão não funciona direito. O cadastro certo vem antes de qualquer sistema inteligente, não depois.
Três alavancas contra ruptura e sobra
Volume total ou curva de grade
Grade uniforme (chute de volume)
- Quantidades parecidas em cada tamanho
- Ruptura precoce nos tamanhos centrais (M, G, 38, 41)
- Sobra nos extremos (PP, GG, 34, 45) liquidada com 40 a 60% de desconto
- A marca culpa a demanda
Reposição pela curva real de venda
- Compra e alocação seguem a concentração medida por tamanho e cor
- Cadastro de grade limpo (PIM) habilita o cálculo da curva
- OMS reserva a unidade correta da grade na compra
- OMS omnichannel reduz ruptura em até 30% e eleva o giro em 10 a 20%
Por que as datas de pico pioram o erro de tamanho?
A venda de roupa e calçado se concentra em datas certas: troca de estação, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Natal e Black Friday.
O problema é que a compra é feita meses antes dessas datas, com base numa previsão. Quando a data chega, não há mais tempo de corrigir o tamanho que errou.
Se a aposta de tamanho estiver errada, o erro se realiza inteiro de uma vez. O que sobra vai direto para a liquidação, sem chance de venda no preço cheio.
Como o erro de grade vira prejuízo
- Compra meses antesFeita com base em previsão.
- A janela chegaNão há mais tempo de ajustar a curva.
- A aposta errada se realiza inteiraSem correção possível no meio do caminho.
- A sobra vai para a liquidaçãoDireto, com desconto pesado.
Por trás da loja, o pico exige dois cuidados. O primeiro é capacidade para separar e despachar muito mais pedidos por dia sem travar. O segundo é manter o estoque certo sob pressão, porque é no pico que vender o que não existe mais causa o maior estrago com o marketplace.
O clima brasileiro atrapalha ainda mais essa previsão: um inverno mais fraco que o esperado é encalhe garantido em tamanhos que já vendiam pouco.
Onde a Onclick entra nessa conta?
A Onclick é uma empresa brasileira de sistemas de gestão para loja física e loja on-line, fundada em 1999 em Marília, São Paulo. Ela cuida da camada de oferta: catálogo, grade, preço e disponibilidade certos em todos os canais.
Em roupa, isso significa mostrar a grade de cor e tamanho do mesmo jeito no site e nos marketplaces, sem vender o que não existe. Em calçado, significa mostrar a disponibilidade real por numeração, para que o estoque publicado corresponda ao par que sai da prateleira.
O próximo passo para quem terminou a última coleção sem o M e cheio de GG é abrir a curva real de venda por tamanho do seu próprio histórico e comparar com o que foi comprado. No começo deste texto, a loja culpava a falta de interesse do cliente pela sobra e pela falta. A guerra contra a sobra se ganha no cadastro e na compra, muito antes de chegar à vitrine.
Perguntas frequentes
O que é a curva de tamanho, e por que ela importa?
É como a venda se distribui entre os tamanhos de um mesmo modelo. Em roupa, a maior parte da venda de um modelo fica em só dois ou três tamanhos. Comprar sem respeitar essa curva causa falta nos tamanhos que vendem e sobra nos tamanhos raros, ao mesmo tempo.
Por que calçado tem tanta devolução on-line?
Porque o ajuste do pé só se sabe depois de calçar. Isso exige um sistema capaz de receber a devolução, conferir o par rápido e recolocá-lo no estoque disponível sem demora. Assim não se cria uma falta de produto que não existe de verdade.
Qual o tamanho da venda de roupa e calçado on-line no Brasil?
Roupa é a maior categoria do comércio eletrônico brasileiro em valor. Calçado vende um volume grande de pares e também tem uma fatia relevante dos pedidos de lojas on-line.
Como reduzir a falta e a sobra de produto ao mesmo tempo?
Tratando os dois como o mesmo problema, não como coisas separadas. Isso exige cadastro certo por tamanho e cor, e juntar o estoque de todos os canais numa conta só, em vez de separado por canal. Sem esse dado detalhado, a compra se baseia em médias que não refletem a curva real de venda.
O peso de moda e calçados no Brasil
Para levar deste guia
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A venda de uma peça se concentra em poucos tamanhos. Na roupa, a maioria das vendas de um modelo fica em só dois ou três tamanhos, como M e G.
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Faltar e sobrar é o mesmo problema visto de dois lados. Falta nos tamanhos que vendem e sobra nos raros, e boa parte do estoque de moda não é vendida até o fim da temporada.
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O calçado tem muita devolução, porque o cliente só sabe se o número serve depois de calçar. Isso exige um processo rápido para o par voltar ao estoque disponível.
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A venda de roupa on-line é a maior categoria do comércio eletrônico brasileiro em valor.
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Juntar o estoque de todos os canais numa conta só reduz a falta de produto e aumenta a venda. Contar peça por peça com etiqueta especial deixa esse número mais certo.
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A Onclick cuida da camada de oferta: catálogo, grade e disponibilidade certas em todos os canais, tanto na numeração de roupa quanto na de calçado.
De onde vêm os números deste guia?
Cada link abre a publicação de origem, com o nome de quem assina o dado e a data em que ele saiu.
- IEMI Inteligência de Mercado, Estudo dos Canais do Varejo de Vestuário 2023, 27 de novembro de 2023.
- Curadoria Brasil GEO, Alexandre Caramaschi, 2026.
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Formações gratuitas do portal de educação de Alexandre Caramaschi, fundador da Brasil GEO.
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Leve a decisão para o seu contexto
Este guia dá o mapa; a sua operação dá os números. As calculadoras do portal transformam o argumento em conta feita com os seus dados. A Onclick mostra como um backoffice integrado sustenta a decisão no dia a dia.