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O imposto da compra chinesa acabou ou só entrou em recesso?

Atualizado em 29 de agosto de 2026

Desde 13 de maio de 2026 a compra de até US$ 50 em plataforma do Remessa Conforme paga 0% de Imposto de Importação e só o ICMS estadual de 17% a 20%, pela Medida Provisória 1.357/2026. O efeito veio rápido: junho de 2026 registrou 27,4 milhões de pacotes e R$ 2,6 bilhões em mercadorias, alta de 116% em um ano, segundo a Receita Federal divulgada pelo IDV, e o acumulado de janeiro a julho chegou a R$ 12,16 bilhões, 47,4% acima de 2025, pela Fecomércio MG. A medida provisória tem prazo de caducidade citado para 8 de setembro de 2026 pelo Senado Federal, e sem conversão em lei os 20% voltam.
Pacotes do Remessa Conforme em jun/202627,4 milhões, +116% em valor (Receita Federal, via IDV)
Remessas de jan a jul/2026R$ 12,16 bilhões, +47,4% (Fecomércio MG)
Imposto de Importação até US$ 50 hoje0%, com ICMS de 17% a 20% (MP 1.357/2026)
Ticket médio nas plataformas asiáticas, 2025R$ 84,14, contra R$ 212,84 no varejo local (EY e Klavi)

Esta folha é para o dono de loja de moda, calçado ou acessório que vende em marketplace e vê o preço do concorrente asiático mudar sem aviso. Você sai sabendo qual regra tributária vale hoje para a compra de até US$ 50, o que os números de 2026 dizem sobre volume e ticket, e o que ajustar no sistema antes da próxima compra de estoque. O caso é o da Ponto Certo Modas, loja de moda feminina em Divinópolis com vendas na Shopee, que viu o giro de acessório cair e precisava decidir se recompunha o estoque de verão.

O que é a taxa das blusinhas e por que ela mudou três vezes em dois anos?

A regra da compra internacional barata mudou três vezes desde 2024, e a de agora é a mais leve das três. Até julho de 2024, a remessa de até US$ 50 feita em plataforma habilitada pagava só o ICMS estadual. A Lei 14.902/2024, publicada em 27 de junho de 2024, criou Imposto de Importação de 20% sobre essa faixa a partir de 1º de agosto daquele ano. Em 13 de maio de 2026, a Medida Provisória 1.357/2026 zerou o imposto federal e manteve o ICMS.

Quem define a faixa é o Remessa Conforme, programa da Receita Federal em que a plataforma estrangeira informa a compra antes do embarque e cobra o imposto no checkout. Pelo manual da Receita Federal vigente em 2026, a compra de até US$ 50 em plataforma habilitada paga 0% de Imposto de Importação e o ICMS do estado. Entre US$ 50 e US$ 3.000, o Imposto de Importação é de 60% com dedução de US$ 30, mais ICMS.

O ICMS uniforme de 17% veio do Convênio ICMS 81/2023 do Confaz. Em abril de 2025, segundo relatório técnico da CNC apresentado na Câmara dos Deputados, dez estados subiram essa alíquota para 20%. O mesmo item custa diferente para um comprador de Belo Horizonte e para um de Curitiba.

A compra internacional barata em 2026

27,4 mipacotes declarados no Remessa Conforme em junho de 2026, alta de 116% em valor no anoReceita Federal, via IDV, jul/2026
R$ 12,16 biem remessas de janeiro a julho de 2026, alta de 47,4%Fecomércio MG, 28/08/2026
0%de Imposto de Importação até US$ 50 desde 13 de maio de 2026, com ICMS mantidoMP 1.357/2026 e Receita Federal, 2026
R$ 84,14ticket médio nas plataformas asiáticas em 2025, contra R$ 212,84 no varejo estabelecidoEY e Klavi, via O Tempo, 14/06/2026
Fonte: Receita Federal, Fecomércio MG, EY e Klavi, 2026

Quanto custa hoje uma compra de US$ 50 na Shein, na Shopee ou na Temu?

Sobre o valor aduaneiro da compra de até US$ 50, o comprador paga hoje apenas o ICMS do seu estado, entre 17% e 20%. O valor aduaneiro soma produto, frete e seguro. O ICMS é cobrado por dentro, ou seja, o próprio imposto integra a base sobre a qual incide, o que empurra a carga efetiva para cerca de 20,5% quando a alíquota anunciada é de 17%.

Se o Imposto de Importação de 20% voltar, a mesma aritmética leva a carga somada para perto de 44,6% do valor aduaneiro. Esse número descreve o regime de agosto de 2024 a maio de 2026 e serve como cenário de simulação para 2027, sem valer para o preço de hoje. A Ponto Certo Modas manteve as duas contas na mesma planilha desde junho, uma para cada regime.

A conta que muda a decisão de sortimento é a do preço final no carrinho do concorrente. O produto chinês anunciado a R$ 29,90 chega ao checkout com o ICMS embutido, e comparar o markup da loja contra o preço de vitrine leva a corte errado de linha. Segundo a EY e a Klavi, em 14 de junho de 2026, o ticket médio em seis plataformas asiáticas foi de R$ 84,14 em 2025, contra R$ 212,84 nos varejistas estabelecidos.

Remessas do Remessa Conforme mês a mês em 2026

  1. jan/202615,35 mi de pacotesR$ 1,33 bilhão em mercadorias
  2. fev/202613,22 mi de pacotesR$ 1,09 bilhão, piso do ano
  3. mar/202616,58 mi de pacotesR$ 1,43 bilhão
  4. abr/202616,51 mi de pacotesR$ 1,46 bilhão
  5. mai/202619,94 mi de pacotesImposto de Importação vai a zero em 13 de maio
  6. jun/202628,36 mi recebidos27,40 mi declarados no programa e R$ 2,60 bilhões, recorde
Fonte: Receita Federal, compilada pelo Times Brasil, jul/2026

Por que junho de 2026 bateu recorde de pacotes?

O volume respondeu ao preço em menos de trinta dias. Segundo dados da Receita Federal divulgados pelo IDV em julho de 2026, junho de 2026 registrou 27,4 milhões de pacotes declarados no Remessa Conforme e R$ 2,6 bilhões em mercadorias, alta de 40% em encomendas e de 116% em valor sobre junho de 2025.

O acumulado confirma o salto. A Fecomércio MG mediu, em 28 de agosto de 2026, R$ 12,16 bilhões em remessas de janeiro a julho de 2026, 47,4% acima dos R$ 8,25 bilhões do mesmo período de 2025. O efeito inverso já havia sido medido antes: pela Nota Técnica 32/2026 da CNI, de 22 de abril de 2026, o programa passou de 179,1 milhões de remessas em 2024 para 159,6 milhões em 2025, queda de 10,9%.

Duas séries que aparecem juntas na imprensa medem coisas diferentes: as remessas do programa são declarações aduaneiras, e as cerca de 41 milhões de encomendas internacionais dos Correios em 2025 são objetos postais de uma transportadora só.

Três regimes em dois anos para a compra de US$ 50

  1. 1
    Até julho de 2024Só o ICMS estadual de 17% na plataforma habilitada
  2. 2
    Agosto de 2024 a maio de 2026Imposto de Importação de 20% mais ICMS de 17% a 20%
  3. 3
    Desde 13 de maio de 2026Imposto de Importação de 0% mais ICMS de 17% a 20%
    Você está aqui
  4. 4
    A partir de setembro de 2026Depende da conversão da medida provisória em lei
Fonte: Lei 14.902/2024, Convênio ICMS 81/2023, MP 1.357/2026 e Senado Notícias, 28/08/2026

O imposto caiu, e o que aconteceu com o volume de moda importada no país?

A pressão sobre a moda nacional é medida e recente. Enquanto as remessas subiam 47,4% de janeiro a julho de 2026, a Fecomércio MG apurou que o volume importado de tecidos, vestuário e calçados recuou 1,2% no Brasil e 4,4% em Minas Gerais no acumulado de doze meses até junho de 2026. Em julho de 2026, a China respondeu por 51,2% do valor e 98,4% do volume físico das peças de vestuário importadas.

O histórico dá a ordem de grandeza do efeito contrário. A mesma entidade mediu queda de 40,9% no volume importado de vestuário no bimestre seguinte à taxação de agosto de 2024. A CNI projetou, na Nota Técnica 32/2026, que a alíquota de 20% teria evitado 46,3 milhões de remessas e US$ 806 milhões em compras externas em 2025, com 135,8 mil empregos preservados.

Como a Ponto Certo achou os produtos em que ainda ganha do preço chinês?

A dona da Ponto Certo exportou do sistema os itens vendidos nos últimos doze meses com margem de contribuição por produto e cruzou com uma busca simples de similar nas três plataformas asiáticas. Dividiu o resultado em três grupos: item com similar direto abaixo de US$ 50, item com similar de qualidade visivelmente inferior e item sem similar.

O primeiro grupo era 34% do faturamento e 11% da margem. A decisão foi cortar metade da recompra desse grupo e transferir a verba para o terceiro, onde prazo de entrega, troca na loja e nota fiscal pesam mais que o preço de etiqueta. O relatório de canal também separou o que ela vende como terceiro nacional na Shopee do que é venda cross-border da plataforma, porque tratar tudo como importado produzia cadastro fiscal errado.

Duas formas de comprar a mesma blusa

Plataforma asiática

  • Ticket médio de R$ 84,14 em 2025
  • Imposto cobrado no checkout, com ICMS por dentro
  • Prazo longo e troca por logística internacional

Varejista estabelecido no Brasil

  • Ticket médio de R$ 212,84 em 2025
  • Nota fiscal, garantia e parcelamento no cartão
  • Entrega em dias e troca no balcão da loja
Fonte: EY e Klavi, via O Tempo, 14/06/2026

O que acontece se a medida provisória caducar em setembro?

Existe uma data concreta no calendário. O Senado Federal informou em 28 de agosto de 2026 que a relatora apresentaria o relatório da medida provisória em 31 de agosto, com prazo de caducidade citado para 8 de setembro de 2026. Sem conversão em lei, a alíquota federal de 20% até US$ 50 volta a valer, e com ela a carga próxima de 44,6% sobre a compra barata.

Medida provisória é a norma editada pelo governo que vale desde a publicação e perde efeito se o Congresso não a converter em lei dentro do prazo. O que vem depois já tem precedente medido: queda de dois dígitos no volume de remessas e recomposição parcial da demanda no varejo nacional de moda. Para quem compra estoque de verão em setembro, a diferença entre os dois cenários é o tamanho do pedido.

GMV estimado dos marketplaces no Brasil em 2025, em R$ bilhões

Mercado Livre: R$ 185 biR$ 185 bi1Shopee: R$ 70 biR$ 70 bi2Magalu: R$ 44,3 biR$ 44,3 bi3Amazon: R$ 40 biR$ 40 bi4Shein: R$ 17 biR$ 17 bi5Temu: R$ 5,5 biR$ 5,5 bi6
  1. Mercado LivreR$ 185 bi
  2. ShopeeR$ 70 bi
  3. MagaluR$ 44,3 bi
  4. AmazonR$ 40 bi
  5. SheinR$ 17 bi
  6. TemuR$ 5,5 bi
Fonte: IRTT, publicado pela Exame, 27/08/2026, estimativa de ranking de mercado

Qual imposto vai equalizar o jogo em 2027?

O equalizador deixa de ser o Imposto de Importação e passa a ser o imposto sobre consumo. A Lei Complementar 214/2025, de 16 de janeiro de 2025, criou regime específico para plataformas digitais e atribuiu à plataforma estrangeira a responsabilidade pelo recolhimento de IBS e CBS nas operações de fornecedores não estabelecidos no país, inclusive na importação por consumidor final.

A consequência de gestão é simples de enunciar e trabalhosa de executar: alíquota parametrizável por data e por unidade da federação, gravada em cadastro. Em dois anos a faixa até US$ 50 passou por isenção, 20%, ICMS de 17%, ICMS de 20% em dez estados e zero de novo. Quem fixou percentual dentro do código do sistema já errou preço três vezes.

Recompor estoque agora ou esperar o desfecho

  • SeO item tem similar importado abaixo de US$ 50
    entãoSimule a margem com o concorrente 20% mais barato antes de fechar o pedido
  • SeA margem sobrevive a esse preço
    entãoRecomponha o estoque no volume normal
  • SeA margem cai e o giro atual cobre 60 dias
    entãoEspere a definição da medida provisória em setembro
  • SeA margem cai e o giro cobre menos de 30 dias
    entãoCompre metade e reavalie o restante em outubro
Fonte: Elaboração a partir de Receita Federal, CNI e Fecomércio MG, 2026

O que fazer com isso antes da próxima compra de estoque?

Cinco movimentos cabem no segundo semestre de 2026 e no primeiro de 2027, todos apoiados no que o sistema de gestão já registra.

  1. Simule dois cenários de imposto para os itens com similar importado abaixo de US$ 50, um com Imposto de Importação zero e outro com 20%, e defina agora o tamanho do pedido em cada um.
  2. Separe no relatório de canal a venda de terceiro nacional da venda cross-border da mesma plataforma, para que política de preço e cadastro fiscal parem de misturar universos.
  3. Corrija NCM e origem na ficha do produto, porque sem esses dois campos nenhum cálculo de carga tributária ou comparação de margem fecha.
  4. Faça a alíquota virar parâmetro com data de vigência no ERP, com histórico por unidade da federação, para que a próxima mudança de regra custe um cadastro e uma hora de trabalho.

A Ponto Certo Modas fechou setembro com pedido de verão pela metade, verba deslocada para a linha sem similar importado e uma tabela de dois cenários pronta para o dia do desfecho da medida provisória. Manter as duas contas em pé custou uma tarde de trabalho no sistema, contra o risco de comprar uma coleção inteira no cenário errado.

Perguntas frequentes

Hoje a compra de até US$ 50 na Shein ou na Shopee paga imposto?

Paga o ICMS estadual, entre 17% e 20% conforme o estado, e está livre do Imposto de Importação federal desde 13 de maio de 2026, quando a Medida Provisória 1.357/2026 zerou a alíquota da faixa em plataformas do Remessa Conforme. O manual da Receita Federal vigente em 2026 descreve essa regra e mantém 60% com dedução de US$ 30 na faixa acima de US$ 50.

E se a medida provisória não for convertida em lei?

Volta a valer o Imposto de Importação de 20% criado pela Lei 14.902/2024. O Senado Federal informou em 28 de agosto de 2026 que o relatório seria apresentado em 31 de agosto, com prazo de caducidade citado para 8 de setembro de 2026. Com os 20% de volta, a carga somada sobre o valor aduaneiro chega perto de 44,6%.

Por que o preço final da mesma compra muda de estado para estado?

Porque o ICMS das remessas internacionais foi uniformizado em 17% pelo Convênio ICMS 81/2023 do Confaz, e dez estados subiram para 20% em abril de 2025, segundo relatório técnico da CNC apresentado na Câmara dos Deputados. Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Roraima e Sergipe estão nessa lista.

Tudo o que se vende na Shopee é importado?

Não. A mesma plataforma opera venda de terceiro nacional e venda cross-border, e nenhuma das grandes publica o corte auditado entre os dois dentro do próprio GMV. Para a gestão da loja, o caminho é separar os dois no relatório de canal, com NCM e origem corretos na ficha do produto.

Quero entender quanto o cross-border pesa no e-commerce brasileiro.

A Ken Research estima cerca de 7% das vendas online do Brasil em 2025, número de mercado e sem origem na Receita Federal. Como referência de tamanho do bolo, a ABIACOM mediu R$ 235,5 bilhões em 2025 e projeta R$ 259,8 bilhões para 2026, em divulgação de 16 de fevereiro de 2026.

Fontes. Senado Federal, Relatório da MP da taxa das blusinhas, 28/08/2026; Receita Federal, Manual do Programa Remessa Conforme, 2026; Presidência da República, Lei 14.902/2024, 27/06/2024; Confaz, Convênio ICMS 81/2023, 2023; CNC, Relatório técnico sobre o Programa Remessa Conforme, 10/10/2025; CNI, Nota Técnica 32/2026 sobre o Programa Remessa Conforme, 22/04/2026; IDV, Remessas internacionais batem recorde de R$ 2,6 bilhões, 20/07/2026; Times Brasil, Série mensal das importações via Remessa Conforme, jul/2026; Fecomércio MG, Remessas internacionais sobem 47% e pressionam o varejo de moda, 28/08/2026; EY e Klavi, via O Tempo, Gasto diário em plataformas asiáticas, 14/06/2026; IRTT, via Exame, Ranking dos maiores marketplaces do Brasil, 27/08/2026; Presidência da República, Lei Complementar 214/2025, 16/01/2025