Se você vende em marketplace e vê o gasto com anúncio subir todo trimestre, esta página explica de onde vem essa conta e como decidir o que continua patrocinado em 2027. O caso condutor é o da Bom Giro Autopeças, duas lojas em Bauru e vendas no Mercado Livre e na Shopee, que descobriu ter 11% do faturamento do canal online indo para anúncio sem saber quais produtos pagavam a própria conta. Você termina sabendo o tamanho do mercado, quem concentra a verba, por que o retorno da plataforma é maior que o do caixa e qual teste cabe numa loja pequena.
O que é retail media e por que ele apareceu na sua fatura sem aviso?
Retail media é a publicidade vendida dentro do próprio ambiente de compra: o resultado patrocinado na busca do marketplace, o banner na vitrine, o destaque no aplicativo da loja. Ele apareceu porque a busca do marketplace é o lugar onde o cliente já decidiu comprar, e a posição nessa lista tem valor de esquina movimentada. Para quem vende, o efeito prático é que a primeira tela de resultado foi ficando ocupada por anúncio pago, e o clique virou custo de circulação.
A Visa mediu, no Panorama E-Commerce divulgado em abril de 2026, que 71% das vendas online brasileiras acontecem em marketplaces, contra 20% em sites próprios e 8% em redes sociais. É essa concentração de tráfego que sustenta o inventário de anúncio: o dono da vitrine revende a atenção que já pagou para atrair.
O tamanho da conta do anúncio dentro da loja
Quanto o Brasil gasta com isso, e por que R$ 4,8 bilhões cabem na sua planilha?
O IAB Brasil e a Kantar Ibope Media mediram, no Digital Adspend divulgado em 29 de abril de 2026, R$ 4,8 bilhões investidos em retail media digital no país em 2025, alta de 37% sobre os R$ 3,5 bilhões de 2024 e mais que o dobro dos R$ 2,1 bilhões de 2023. O total de publicidade digital brasileira no mesmo ano ficou em R$ 42,7 bilhões, o que coloca cerca de um real em cada nove dentro da loja onde a compra acontece. O mesmo estudo projeta R$ 5,1 bilhões para 2026.
Esse número cabe na planilha do lojista porque sai do bolso de quem vende. A eMarketer, citada pelo Valor International em 12 de agosto de 2026, projeta que o formato chegue a 16,3% do investimento digital brasileiro em 2026, contra 2,3% em 2020, e a 22,2% em 2030. Para a Bom Giro a tradução é direta: a fatia do preço destinada a aparecer sobe todo ano, e o preço de venda acompanha ou a margem cede.
Retail media no Brasil, ano a ano, em R$ bilhões
Se 69% da verba está em um só lugar, quantas escolhas você tem de verdade?
Poucas. A eMarketer projeta para 2026 que o Mercado Livre fique com 69,1% do investimento em retail media no Brasil e a Amazon com 12,7%, segundo o Valor International de 12 de agosto de 2026. Em tráfego a régua é outra e igualmente concentrada: a Similarweb, em levantamento do BTG publicado pelo O Globo em 2 de março de 2026, mediu 33,7% dos acessos de marketplace no Mercado Livre, 26,5% na Amazon, 22,3% na Shopee e 11,7% no Magalu em janeiro de 2026.
A receita de anúncio dessas redes cresce mais rápido que a venda de mercadoria. O MercadoLibre reportou alta de 73% em dólares na receita do Mercado Ads no segundo trimestre de 2026, e o Magazine Luiza informou crescimento de 54% a 55% na receita do Magalu Ads em 2025. Redes menores encontram nicho pela frequência de compra, como a Panvel, que reportou alta de 79% na sua operação de anúncio no segundo trimestre de 2026.
Quem fica com a verba de retail media no Brasil em 2026
Por que o retorno que a plataforma mostra é maior que o que entra no caixa?
Porque a plataforma conta como vitória a venda que aconteceria de qualquer jeito. O modelo padrão de atribuição é o último clique, que credita ao anúncio toda compra feita depois dele. Testes independentes de incrementalidade reunidos pela MediaPath em 13 de julho de 2026, a partir de material da The Trade Desk, reconstroem retornos de 30% a 60% abaixo do que as redes reportam por esse critério. Incrementalidade é a parcela da venda que só existiu por causa do anúncio.
O mercado conhece o problema e ainda trabalha sem régua comum. A pesquisa da MMA divulgada em maio de 2026 aponta 43% dos profissionais elegendo a falta de métricas padronizadas como problema principal e 37% citando a dificuldade de comparar plataformas. O IAB publicou em janeiro de 2024 diretrizes de medição de retail media para uniformizar impressão, clique, atribuição e janela de conversão.
Por que o marketplace tem tanto incentivo para vender mais espaço?
Porque mídia rende muito mais que mercadoria. O levantamento do TheAdSpend de 24 de março de 2026 mede margem de 70% a 90% no anúncio exibido no próprio site ou aplicativo do varejista, chamado de onsite, e de 20% a 40% quando o varejista leva seus dados para inventário de terceiros, o offsite. A margem da operação de mercadoria no varejo fica entre 5% e 10%. A McKinsey estimou margem operacional de 50% a 70% para redes maduras.
Um varejista com essa conta na mesa tem motivo permanente para ampliar o espaço patrocinado na tela, e a disputa por posição orgânica piora ano a ano para quem vende. A WARC projetou em 19 de agosto de 2026 um investimento mundial de US$ 223,4 bilhões em retail media em 2027, alta de 11,5%, o menor ritmo da série, com crescimento de apenas 9,8% quando se exclui a Amazon.
Onde nasce a margem: mercadoria ou mídia
Vender mercadoria
- Margem da operação de varejo entre 5% e 10%
- Depende de estoque parado, frete e devolução
- Cada real de venda exige um produto comprado antes
Vender espaço de anúncio
- Margem de 70% a 90% no inventário do próprio site ou app
- Margem de 20% a 40% quando o inventário é de terceiros
- Redes maduras operam com 50% a 70% de margem operacional
Como a Bom Giro descobriu quais anúncios pagavam a própria conta?
Desligando anúncio de propósito. A loja separou 20 itens comparáveis de filtro e pastilha de freio em dois grupos parecidos em giro e em preço, desligou a campanha de um dos grupos por 14 dias e comparou a venda total dos dois, sem olhar a venda atribuída pela plataforma. Sete itens venderam praticamente o mesmo com e sem anúncio, e a verba deles saiu no mês seguinte.
Depois veio a conta de margem. Para cada item que sobrou, a Bom Giro subtraiu do preço a comissão do canal, o frete, o imposto e o custo do produto, e só então dividiu o que restava pelo gasto de clique medido no período. A leitura mudou o ranking: o produto de maior faturamento no canal ficou em quinto lugar em margem incremental, e dois itens de giro médio pagavam a conta inteira da campanha.
O desconto da realidade no retorno anunciado
- Retorno reportado pela rede100atribuição por último clique
- Reconstruído por teste, teto70
- Reconstruído por teste, piso40a diferença é a venda que aconteceria sem o anúncio
O que precisa estar certo no sistema antes de subir a próxima campanha?
Estoque, ficha de produto e conciliação por canal.
- Anúncio de item sem estoque queima dinheiro duas vezes, porque paga o clique e entrega ruptura, então o saldo precisa viajar do sistema de gestão para o canal em minutos.
- Título, imagem, GTIN, categoria e atributo determinam ranqueamento orgânico e qualidade do anúncio, e catálogo mal cadastrado encarece o clique.
- Faturamento, comissão, verba de mídia e devolução precisam fechar no mesmo relatório por canal, senão o canal que mais vende aparece como o mais lucrativo sem sê-lo.
Usar base própria de cliente para segmentar campanha é tratamento de dado pessoal, com consentimento e finalidade registrados. A Lei 13.709 prevê no artigo 52 multa de até 2% do faturamento, limitada a R$ 50 milhões por infração.
Vale patrocinar este produto no próximo mês
- SeA cobertura de estoque cobre menos de 30 diasentãoSegure a campanha até repor
- SeA margem bruta cobre a comissão do canal e o freteentãoSiga para o teste de desligamento
- SeA venda cai quando o anúncio sai do ar por 14 diasentãoMantenha a verba e reveja o lance
- SeA venda fica igual sem anúncioentãoRealoque a verba para outro item
O que fazer com isso até 2027
A Bom Giro terminou o trimestre seguinte gastando 7% do faturamento do canal em anúncio, contra 11% no início, e vendendo praticamente o mesmo volume. Cinco decisões sustentam esse resultado em qualquer loja que dependa de marketplace.
- Traga a margem por item para dentro do sistema de gestão, com comissão, frete, imposto e custo do produto no mesmo cálculo.
- Lance o gasto de mídia como custo de venda na formação de preço, na mesma linha da comissão do canal.
- Rode teste de desligamento a cada trimestre, em grupos de itens comparáveis, comparando venda total em vez de venda atribuída.
- Bloqueie campanha de item com cobertura de estoque abaixo de 30 dias, por regra automática dentro do sistema, nunca por lembrete de agenda.
- Guarde o seu próprio registro de incrementalidade por trimestre, porque a régua comum de mercado segue em formação.
O anúncio dentro do marketplace saiu do orçamento de marketing e entrou na formação de preço. Quem conhece a margem de cada item decide com número na mão qual produto merece verba, e quem desconhece descobre pelo extrato no fim do mês.