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Por que o crédito trava a venda em 2026 e 2027

Atualizado em 29 de agosto de 2026

O endividamento das famílias brasileiras chegou a 82,0% em julho de 2026, o sexto recorde seguido. Nesse mesmo mês, 29,8% das famílias estavam com contas em atraso e 83,9 milhões de pessoas tinham o nome negativado. A confiança do comprador caiu ao menor patamar desde novembro de 2022, mesmo com o desemprego em queda. Para a sua loja, a vontade de comprar continua de pé e esbarra no limite de crédito de quem paga.
Famílias endividadas em julho de 202682,0% (CNC, Peic)
Nomes negativados em julho de 202683,9 milhões (Serasa)
Confiança do consumidor em agosto de 202684,7 pontos (FGV Ibre)
Juros ao consumidor sem consignação em junho de 2026Cerca de 64% ao ano (Banco Central via CNC)

Esta página explica por que a vontade de comprar segue firme e a venda ainda trava no crédito do cliente. Serve para quem vende a prazo e sente a recusa acontecer no caixa. Ao final, você sabe o que ajustar na forma de pagamento para 2027.

Por que a venda morre no caixa mesmo com a loja cheia

Acompanhe uma loja de roupa como cenário, numa sexta-feira à noite, com fila no caixa. A cliente pede para pagar em quatro vezes e a maquininha recusa. Ela tenta outro cartão e devolve uma peça do carrinho.

A venda que a vitrine conquistou morreu no crédito da compradora. Essa cena tem números públicos por trás, e é deles que sai a decisão de como oferecer o pagamento na próxima sexta-feira.

Oito em cada dez famílias já chegam devendo

O endividamento das famílias chegou a 82,0% em julho de 2026, o sexto recorde seguido da pesquisa da CNC. Um mês antes o número era 81,6%. Um ano antes, era 78,5%.

O peso se distribui de forma desigual por faixa de renda. Entre as famílias que ganham até três salários mínimos, 84,9% estavam endividadas, ante 81,2% um ano antes.

O cartão de crédito aparece em 85,3% dos lares endividados. Na loja de roupa, isso significa que a maior parte da fila do caixa já usou boa parte do limite antes de entrar na loja.

Dívida e atraso por renda, 07/2026

  • Famílias endividadas, renda de até três salários mínimos84,9%
  • Famílias endividadas, todas as faixas de renda82,0%
  • Contas em atraso, renda de até três salários mínimos38,5%
  • Contas em atraso, todas as faixas de renda29,8%
Fonte: CNC, Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, julho de 2026.

O atraso parou de subir, e o nome negativado bate recorde

A parcela de famílias com contas em atraso ficou em 29,8% em julho de 2026. Um mês antes era 29,9%, e um ano antes, 30%. O atraso médio ficou em 64,6 dias.

A leitura por cadastro mostra o outro lado, que é o tamanho da dívida acumulada. A Serasa registrou 83,9 milhões de brasileiros com o nome negativado em julho de 2026, o maior número da série, depois de 19 meses seguidos de alta.

As duas réguas medem coisas distintas. A CNC pergunta às famílias se existe conta em atraso naquele mês. A Serasa soma as pessoas com dívida registrada em cadastro de restrição.

Quem renegocia costuma fechar acordos pequenos. O valor médio do acordo de renegociação ficou em R$ 761 no mês, sinal de que a dívida é parcelada em pedaços que cabem no orçamento apertado.

O estoque de restrição registrado

83,9 miBrasileiros com CPF negativado em julho de 2026Serasa, julho de 2026
19 mesesAltas consecutivas até julho de 2026Serasa, julho de 2026
R$ 761Valor médio do acordo de renegociação no mêsSerasa, julho de 2026
Fonte: Serasa, Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas, julho de 2026.

Emprego melhorou e a confiança do comprador caiu assim mesmo

O mercado de trabalho deu folga. A desocupação caiu para 5,4% no trimestre encerrado em junho de 2026, ante 6,1% no trimestre anterior. A renda média real ficou em R$ 3.738 por mês.

O humor do comprador foi na direção oposta. O índice de confiança do consumidor da FGV caiu 3,6 pontos em agosto de 2026, para 84,7 pontos. Foi a quarta queda seguida e o menor patamar desde novembro de 2022.

A FGV associa o recuo ao endividamento alto e à expectativa de inflação, que subiu de 5,8% em julho para 6,2% em agosto. Quem espera preço maior adia a compra grande.

O índice de intenção de consumo das famílias, da CNC, ainda marcava 104,9 pontos no mesmo mês. Um índice mede a intenção concreta de comprar; o outro mede a confiança geral. A distância entre eles é um receio que ainda não virou desistência.

Por que o crédito custa muito mais do que a Selic sugere

Existe um empréstimo sem desconto automático no salário, chamado de crédito livre sem consignação. Em junho de 2026, a taxa média dele ao consumidor ficou perto de 64% ao ano.

Isso aconteceu com a Selic, a taxa básica de juros do país, recuando de 15% para 14% ao ano no mesmo período. O alívio da taxa básica leva meses para chegar à ponta.

Para o fim de 2026, a projeção mais recente do Banco Central aponta Selic de 13,75% ao ano. Para o fim de 2027, a mediana do mercado projeta 12,00% ao ano.

Endividamento das famílias na Peic

  1. Julho de 202578,5% endividadas na Peic da CNCBase de comparação anual da mesma pesquisa.
  2. Junho de 202681,6% endividadas na Peic da CNCQuinto recorde seguido da série iniciada em 2010.
  3. Julho de 202682,0% endividadas na Peic da CNCSexto recorde seguido, com 29,8% das famílias em atraso e 64,6 dias de atraso médio.
  4. Setembro de 202682,6% projetados pela CNCA entidade projeta ainda 30,3% de famílias com contas em atraso no mês.
Fonte: CNC, Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, 6 de agosto de 2026.

O que dá para preparar agora para 2027

A conta de 2027 começa apertada. Num cenário favorável, o consumo real das famílias cresce 0,8% em 2027 e 2,5% no ano seguinte. No cenário adverso, há retração de 0,4% no primeiro ano.

No curto prazo, a CNC projeta endividamento de 82,6% e inadimplência de 30,3% para setembro. O varejo restrito, que reúne as vendas do comércio sem carros e material de construção, cresceu 0,5% de maio para junho.

Volte à fila daquele caixa de sexta-feira. Quem decide a próxima venda é a oferta montada antes da recusa acontecer. Juros perto de 64% ao ano pedem o Pix bem visível na hora de pagar e a parcela calibrada para quem já chega devendo.

Faça isso hoje: pegue as recusas de cartão do último mês na sua maquininha e conte quantas viraram venda em outra forma de pagamento. Esse número diz o tamanho da sua oferta que falta montar.

Perguntas frequentes

Qual medida de inadimplência usar para calibrar o crédito da minha loja?

As duas medidas respondem a perguntas diferentes. A pesquisa da CNC mede o aperto do orçamento no mês, útil para dimensionar parcela e prazo. Em julho de 2026, apontou 29,8% das famílias com conta em atraso. O mapa da Serasa mede a dívida já registrada em cadastro, o que aparece na consulta do balcão. No mesmo mês, foram 83,9 milhões de nomes negativados. Somar as duas como se fossem a mesma taxa distorce a política de crédito.

O cliente de renda mais baixa parou de comprar em 2026?

Continua comprando, com folga menor. Em julho de 2026, entre as famílias de até três salários mínimos, 84,9% estavam endividadas e 38,5% tinham conta em atraso. Foi a única faixa de renda em que a inadimplência subiu na comparação com o ano anterior. No conjunto do comércio, o varejo restrito ainda cresceu 0,5% de maio para junho de 2026, o que indica demanda viva com ticket e prazo sob pressão.

A queda da Selic prevista para 2027 barateia o crédito do meu cliente?

A projeção aponta juros básicos menores, e a taxa ao consumidor costuma acompanhar com atraso. Para o fim de 2027, a mediana do mercado projeta Selic de 12,00% ao ano. Em junho de 2026, a taxa média do crédito livre sem consignação ficou perto de 64% ao ano, com a Selic já caindo de 15% para 14%. Para planejar 2027, trabalhe com uma faixa: o consumo real das famílias pode crescer 0,8% ou recuar 0,4%.

Fontes. CNC, Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor de julho de 2026, 6 de agosto de 2026; CNC, Peic por faixa de renda e leitura do Banco Central sobre juros e endividamento, 26 de agosto de 2026; Serasa, Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas de julho de 2026, julho de 2026; FGV Ibre, Sondagem do Consumidor de agosto de 2026, 25 de agosto de 2026; CNC, Índice de Intenção de Consumo das Famílias de agosto de 2026, 20 de agosto de 2026; IBGE, PNAD Contínua Trimestral do segundo trimestre de 2026, 14 de agosto de 2026; IBGE, Pesquisa Mensal de Comércio de junho de 2026, 13 de agosto de 2026; Banco Central, Boletim Focus de 24 de agosto de 2026, 24 de agosto de 2026