Esta página explica por que a vontade de comprar segue firme e a venda ainda trava no crédito do cliente. Serve para quem vende a prazo e sente a recusa acontecer no caixa. Ao final, você sabe o que ajustar na forma de pagamento para 2027.
Por que a venda morre no caixa mesmo com a loja cheia
Acompanhe uma loja de roupa como cenário, numa sexta-feira à noite, com fila no caixa. A cliente pede para pagar em quatro vezes e a maquininha recusa. Ela tenta outro cartão e devolve uma peça do carrinho.
A venda que a vitrine conquistou morreu no crédito da compradora. Essa cena tem números públicos por trás, e é deles que sai a decisão de como oferecer o pagamento na próxima sexta-feira.
Oito em cada dez famílias já chegam devendo
O endividamento das famílias chegou a 82,0% em julho de 2026, o sexto recorde seguido da pesquisa da CNC. Um mês antes o número era 81,6%. Um ano antes, era 78,5%.
O peso se distribui de forma desigual por faixa de renda. Entre as famílias que ganham até três salários mínimos, 84,9% estavam endividadas, ante 81,2% um ano antes.
O cartão de crédito aparece em 85,3% dos lares endividados. Na loja de roupa, isso significa que a maior parte da fila do caixa já usou boa parte do limite antes de entrar na loja.
Dívida e atraso por renda, 07/2026
- Famílias endividadas, renda de até três salários mínimos84,9%
- Famílias endividadas, todas as faixas de renda82,0%
- Contas em atraso, renda de até três salários mínimos38,5%
- Contas em atraso, todas as faixas de renda29,8%
O atraso parou de subir, e o nome negativado bate recorde
A parcela de famílias com contas em atraso ficou em 29,8% em julho de 2026. Um mês antes era 29,9%, e um ano antes, 30%. O atraso médio ficou em 64,6 dias.
A leitura por cadastro mostra o outro lado, que é o tamanho da dívida acumulada. A Serasa registrou 83,9 milhões de brasileiros com o nome negativado em julho de 2026, o maior número da série, depois de 19 meses seguidos de alta.
As duas réguas medem coisas distintas. A CNC pergunta às famílias se existe conta em atraso naquele mês. A Serasa soma as pessoas com dívida registrada em cadastro de restrição.
Quem renegocia costuma fechar acordos pequenos. O valor médio do acordo de renegociação ficou em R$ 761 no mês, sinal de que a dívida é parcelada em pedaços que cabem no orçamento apertado.
O estoque de restrição registrado
Emprego melhorou e a confiança do comprador caiu assim mesmo
O mercado de trabalho deu folga. A desocupação caiu para 5,4% no trimestre encerrado em junho de 2026, ante 6,1% no trimestre anterior. A renda média real ficou em R$ 3.738 por mês.
O humor do comprador foi na direção oposta. O índice de confiança do consumidor da FGV caiu 3,6 pontos em agosto de 2026, para 84,7 pontos. Foi a quarta queda seguida e o menor patamar desde novembro de 2022.
A FGV associa o recuo ao endividamento alto e à expectativa de inflação, que subiu de 5,8% em julho para 6,2% em agosto. Quem espera preço maior adia a compra grande.
O índice de intenção de consumo das famílias, da CNC, ainda marcava 104,9 pontos no mesmo mês. Um índice mede a intenção concreta de comprar; o outro mede a confiança geral. A distância entre eles é um receio que ainda não virou desistência.
Por que o crédito custa muito mais do que a Selic sugere
Existe um empréstimo sem desconto automático no salário, chamado de crédito livre sem consignação. Em junho de 2026, a taxa média dele ao consumidor ficou perto de 64% ao ano.
Isso aconteceu com a Selic, a taxa básica de juros do país, recuando de 15% para 14% ao ano no mesmo período. O alívio da taxa básica leva meses para chegar à ponta.
Para o fim de 2026, a projeção mais recente do Banco Central aponta Selic de 13,75% ao ano. Para o fim de 2027, a mediana do mercado projeta 12,00% ao ano.
Endividamento das famílias na Peic
- Julho de 202578,5% endividadas na Peic da CNCBase de comparação anual da mesma pesquisa.
- Junho de 202681,6% endividadas na Peic da CNCQuinto recorde seguido da série iniciada em 2010.
- Julho de 202682,0% endividadas na Peic da CNCSexto recorde seguido, com 29,8% das famílias em atraso e 64,6 dias de atraso médio.
- Setembro de 202682,6% projetados pela CNCA entidade projeta ainda 30,3% de famílias com contas em atraso no mês.
O que dá para preparar agora para 2027
A conta de 2027 começa apertada. Num cenário favorável, o consumo real das famílias cresce 0,8% em 2027 e 2,5% no ano seguinte. No cenário adverso, há retração de 0,4% no primeiro ano.
No curto prazo, a CNC projeta endividamento de 82,6% e inadimplência de 30,3% para setembro. O varejo restrito, que reúne as vendas do comércio sem carros e material de construção, cresceu 0,5% de maio para junho.
Volte à fila daquele caixa de sexta-feira. Quem decide a próxima venda é a oferta montada antes da recusa acontecer. Juros perto de 64% ao ano pedem o Pix bem visível na hora de pagar e a parcela calibrada para quem já chega devendo.
Faça isso hoje: pegue as recusas de cartão do último mês na sua maquininha e conte quantas viraram venda em outra forma de pagamento. Esse número diz o tamanho da sua oferta que falta montar.