Esta página explica por que duas contas públicas do e-commerce brasileiro dão números diferentes para o mesmo ano, e qual usar. Serve para quem toma decisão de negócio com base em manchete de mercado. Ao final, você sabe escolher a fonte certa para o seu caso e citar sem errar.
Por que duas contas dão números tão diferentes
Toda vez que uma reportagem publica o tamanho do e-commerce brasileiro, dois leitores chegam a conclusões opostas com a mesma notícia na mão. A causa raramente é má-fé de quem mede: é a régua, ou seja, o recorte e o método usados para somar as vendas.
Uma dona de papelaria que decide a compra do ano com base nesse número precisa saber qual régua está por trás dele antes de confiar na tendência.
O que a ABIACOM está contando
A ABIACOM, associação que até recentemente se chamava ABComm, fechou 2025 em R$ 235,5 bilhões. O valor representa alta de 15,3% sobre 2024. A entidade também projetou R$ 259,8 bilhões para 2026, em anúncio de fevereiro.
2025 medido por duas instituições
O que a FecomercioSP está contando
A FecomercioSP chegou a R$ 295,6 bilhões para o mesmo ano, num estudo próprio sobre o setor. O levantamento soma pesquisa direta a dados do Observatório do E-commerce e do IBGE. Por isso o recorte é mais largo que o da ABIACOM, e o percentual de crescimento também muda: 20% numa conta, 15,3% na outra.
A distância entre as duas contas passa de sessenta bilhões de reais, mais que o faturamento de uma rede regional inteira. Somar as duas não funciona: nenhuma das duas instituições sustenta esse total.
O que o IBGE mostra, e por que ele mede outra coisa
Há um terceiro termômetro, e ele é oficial: a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE. Ela mede volume, ou seja, a quantidade vendida, sem o efeito do preço. Em junho de 2026, o varejo cresceu 0,5% sobre maio e 2,9% sobre o mesmo mês do ano anterior.
Valor e volume contam histórias diferentes
Faturamento em reais e volume de peças vendidas não são a mesma medida, e as duas podem apontar direções opostas no mesmo mês. O setor de vestuário, por exemplo, aparece com R$ 314,9 bilhões nominais em 2025 pelo IEMI.
No mesmo período, o recorte de tecidos, vestuário e calçados do IBGE mostrou queda de 1,7% em volume na comparação anual. As duas informações convivem sem contradição: o preço subiu mais do que a quantidade vendida.
Como citar um número de mercado sem errar
A regra é curta: nunca use um número de mercado sem dizer quem mediu, quando e qual foi o recorte. Quem publica preço, meta ou projeção de venda em cima de um número solto acaba defendendo uma conta que não é sua.
Para planejar a operação, escolha uma série e fique nela por vários períodos. A tendência dentro de uma mesma metodologia vale mais que o valor absoluto tirado de fontes misturadas.
O que muda para a sua compra do ano
Volte ao caso da papelaria. Se a dona planeja a compra de material escolar pela manchete de "recorde de 20%", ela pode superestimar a demanda.
Esse percentual é da FecomercioSP, não da ABIACOM, e nenhuma das duas fala do bairro dela. O caminho mais seguro é acompanhar uma única fonte, ano após ano, e ajustar o pedido pela própria venda do período anterior, não pelo total nacional.
A página abriu perguntando por que os números divergem. Divergem porque medem coisas diferentes, e a resposta certa depende de qual pergunta você está fazendo.