Esta folha serve ao dono de loja que vende no carnê e precisa decidir, em 2026, se continua financiando o próprio cliente em 2027. Você sai sabendo quanto o crédito da loja pesa nas vendas do varejo, qual inadimplência o mercado registra, quanto custa esse dinheiro e o que o início do split payment faz com o caixa. O caso que acompanha o texto é a Ótica Mendes, três lojas no interior de Minas, que fecha 45% das vendas no carnê e viu o atraso acima de noventa dias sair de 7% para perto de 10% em um ano.
Por que o carnê voltou para o balcão da Ótica Mendes?
O carnê voltou porque o banco recusou o cliente. A Serasa Experian contou 83,9 milhões de negativados em julho de 2026, 51,0% da população adulta, com acordo médio de R$ 761. A CNC mediu, em 6 de agosto de 2026, 82,0% das famílias endividadas e 29,8% com contas em atraso, e registrou o carnê de loja como segunda modalidade de dívida, presente em 16,1% delas, atrás do cartão de crédito, com 85,3%.
Na Ótica Mendes o efeito é direto: o cliente que quer uma armação de R$ 700 não passa na análise do cartão e passa na ficha da loja. O estudo da RPE divulgado pelo Estadão em 13 de agosto de 2026 mediu aprovação perto de 30% no crédito do próprio comerciante, contra 5% a 8% no bancário, com tíquete médio de R$ 305,82 contra R$ 143,52. Crediário próprio é a venda a prazo financiada pela loja, com o risco de calote inteiro no lojista.
O crediário do varejo em quatro números
Quanto o crédito da própria loja já pesa nas vendas do varejo?
Pesa 15,52% do faturamento. A RPE mediu essa fatia em 2025 numa amostra de mais de oitenta varejistas, contra 9,27% em 2023, avanço de quase 70% em dois anos. O mix se concentra em moda, com 58,77% do volume, seguida do ramo alimentar, com 26,75%, e de eletromóveis e construção, com 14,80%. A GMattos encontrou crediário direto em 37,3% das lojas online monitoradas em julho de 2025, em levantamento republicado pela Giro.Tech.
Por rede, o Varejo Finance Report 2026 mediu penetração de 54,2% na Quero-Quero e de 19% no Magalu no quarto trimestre de 2025. A leitura útil para uma rede pequena está na dispersão: quem vende durável de tíquete alto financia mais, e quem vende conveniência financia pouco.
Penetração do crédito próprio nas vendas, 4T25
- Quero-Quero54,2%
- Riachuelo31,1%
- Renner28,7%
- C&A27,8%
- Casas Bahia21,6%
Por que a inadimplência do crediário fica acima da bancária?
Fica acima porque a loja aprova exatamente quem o banco recusou. O índice do Meu Crediário mediu 8,48% em fevereiro de 2026, contra 6,74% em fevereiro de 2025, contando parcelas com mais de noventa dias de atraso sobre o total vendido a prazo. Em maio de 2026 o mesmo índice registrou roupas e calçados em 10,40%, óticas em 9,83% e móveis e eletro em 7,46%. A média anual do índice em 2025 ficou em 8,20%.
Três réguas circulam juntas na imprensa e medem coisas diferentes. O Banco Central mediu 4,9% de inadimplência acima de noventa dias no sistema financeiro em julho de 2026, recorde da série. A CNC mediu 29,8% de famílias com contas em atraso no mesmo mês, resposta de família em pesquisa domiciliar. O Meu Crediário mede parcela de carnê. Somar as três produz um número que não corresponde a nada.
Inadimplência do crediário por segmento, mai/2026
Quanto custa, de verdade, o dinheiro que você empresta ao cliente?
Custa o preço do capital de giro somado à perda esperada. O Banco Central registrou cerca de 64% ao ano no crédito livre não consignado às famílias em agosto de 2026, com a Selic ainda em dois dígitos, e o rotativo do cartão em 436,2% ao ano. No carnê a dispersão é enorme. Um cálculo publicado pelo Estadão em dezembro de 2025 apontou 29,9% ao ano no carnê de outubro de 2025, enquanto as demonstrações do segundo trimestre de 2026 do Grupo Casas Bahia registram taxa média contábil de 177,03% ao ano na carteira da rede.
A conta da Ótica Mendes tem quatro linhas: o dinheiro parado na carteira, a perda esperada, a cobrança e o imposto da venda, que sai antes de a última parcela entrar. Com prazo médio de recebimento de catorze meses, número que a Casas Bahia informa para o próprio carnê, cada real vendido a prazo fica mais de um ano fora do caixa da loja.
O que o caso Casas Bahia ensina sobre carteira grande e provisão curta?
Ensina que carteira de crédito precisa de provisão antes de precisar de venda. Em 30 de junho de 2026 o Grupo Casas Bahia informou carteira bruta de crediário de R$ 6,177 bilhões e provisão para perdas de 13,0% dela, contra 12,2% em 31 de dezembro de 2025. Em agosto de 2026 o grupo pediu recuperação judicial, com R$ 17,3 bilhões de passivos, e manteve o crediário como ativo estratégico.
Provisão para perdas é o dinheiro que a empresa separa no balanço para a parte da carteira que já não espera receber. A loja que deixa de provisionar lê como lucro aquilo que ainda é promessa de recebimento e descobre o buraco quando a safra vence. A primeira parcela em atraso de uma turma de contratos antecipa o comportamento das demais, e é por isso que a medição precisa ser por safra.
O calendário que mexe com o carnê
- ago/2026IBS e CBS na notaCampos obrigatórios na NF-e e na NFC-e em produção desde 3 de agosto; a rejeição automática está suspensa desde 31 de julho, sem data de retomada.
- ago/2026Crédito caro e escassoRotativo do cartão a 436,2% ao ano e 4,9% de inadimplência no sistema financeiro, recorde da série do Banco Central.
- dez/2026Contratos de BaaSQuem terceirizou o motor de crédito precisa adaptar contrato até 31 de dezembro, pela Resolução Conjunta nº 16/2025.
- 2027Split payment gradualComeça por operações entre empresas, sem alcançar venda a pessoa física nem empresa integralmente no Simples, e sem cartão de crédito nessa fase.
Cartão de loja ou carnê digital: qual cabe numa rede de três unidades?
O cartão de loja é produto de rentabilidade e pede escala. A Realize, financeira ligada à Renner, respondeu por 31,04% do lucro líquido consolidado do grupo em 2025, R$ 452 milhões, segundo o Varejo Finance Report 2026. Cartão private label é o cartão que só compra dentro da rede que o emitiu, operado por uma financeira do próprio grupo, e essa estrutura só se paga com base grande de clientes.
Para três lojas, o caminho realista é o carnê registrado e cobrado por meio digital. O Magalu informou em dezembro de 2025 que 80% dos clientes do crediário pagam a parcela por Pix. Há uma decisão jurídica embutida na escolha. Segundo a Celcoin, em fevereiro de 2026, o carnê financiado com capital da própria loja dispensa licença do Banco Central, e em troca impede ceder a carteira a um FIDC, o que obriga a montar CDC ou BNPL com parceiro autorizado.
Três réguas de inadimplência que não se somam
Crediário de varejo, 8,48%
- Parcelas com mais de 90 dias de atraso
- Base: total vendido a prazo na loja
- Fevereiro de 2026, contra 6,74% um ano antes
- Índice do Meu Crediário
Sistema financeiro, 4,9%
- Operações de instituições autorizadas pelo Banco Central
- Fora dessa base fica o carnê financiado pela própria loja
- Julho de 2026, recorde da série desde 2011
- A régua da CNC é outra: 29,8% de famílias com contas em atraso
O que muda no seu caixa quando o split payment começar, em 2027?
Muda o prazo do imposto, antes da parcela do cliente. Split payment é o mecanismo da reforma tributária que separa IBS e CBS no momento da liquidação do pagamento. A Folha publicou em 25 de agosto de 2026 que a fase de 2027 é gradual, começa por operações entre empresas, deixa de fora a venda a pessoa física e a empresa integralmente no Simples, e vale para boleto, TEF, TED e Pix, sem cartão de crédito. A LC 214, de 16 de janeiro de 2025, trata da segregação na liquidação nos artigos 31 e 35, sem fixar ano de obrigatoriedade.
O efeito sobre o carnê de pessoa física chega pelo caixa. A Peers Consulting analisou em maio de 2026 o fim do float fiscal, o intervalo de trinta a quarenta e cinco dias em que o tributo já cobrado fica na conta da empresa antes do recolhimento. Quem financia carnê com esse dinheiro perde a fonte de giro. Na emissão, os campos de IBS e CBS já são obrigatórios na NF-e e na NFC-e em produção desde 3 de agosto de 2026, e a rejeição automática por ausência deles está suspensa desde 31 de julho de 2026, sem data de retomada.
Que caminho de crédito cabe na sua loja
- SeTíquete alto, cliente recorrente e menos de dez lojasentãoCarnê próprio registrado, com boleto e Pix, provisão mensal e taxa por faixa de risco
- SeBase grande, marca forte e apetite por operação financeiraentãoCartão de loja com financeira parceira, como fazem Renner e Quero-Quero
- SeVenda online com tíquete médio e recompra frequenteentãoBNPL de parceiro autorizado, presente em 62,7% das lojas online em 2025
- SeSem medição de safra, sem provisão e sem contrato formalentãoSuspender a concessão até separar os registros no sistema de gestão
O que fazer com isso até o fim de 2027
A Ótica Mendes tem doze meses para transformar carnê em carteira administrada. São cinco movimentos, todos dependentes do sistema de gestão que a loja já usa.
- Separe os registros. Venda, documento fiscal, contrato, parcela, juros, multa, renegociação e baixa precisam ser linhas distintas. Enquanto tudo mora em contas a receber, a margem some dentro da receita.
- Meça por safra e por faixa de atraso. Acompanhe 30, 60 e 90 dias por mês de originação. O total em atraso esconde a piora recente atrás do histórico bom.
- Provisione todo mês. Use a curva de perda da própria loja e compare com os 13,0% que a maior carteira do país reservava em junho de 2026.
- Precifique pelo risco e pelo prazo. Taxa única para todo cliente subsidia o mau pagador com o dinheiro do bom. Amarre a taxa à faixa de score, ao valor de entrada e ao número de parcelas.
- Prepare a conciliação de 2027. Ligue pedido, documento fiscal, parcela e recebimento num vínculo rastreável, que é o mesmo encanamento exigido pelo split payment. Sistemas de gestão de varejo como o ERP Onclick guardam esse vínculo no cadastro, e a régua de cobrança precisa registrar consentimento e opt-out por causa da LGPD.
A decisão que sobra para o dono da Ótica Mendes é de preço. Se a carteira de R$ 900 mil roda a catorze meses e perde 10% acima de noventa dias, a taxa cobrada precisa cobrir capital, perda e cobrança antes de sobrar margem de ótica. Quando não cobre, o caminho é encurtar prazo, pedir entrada maior ou aprovar menos, e nenhum deles espera 2027.