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Backend e gestão

O carnê da sua loja ainda vai dar lucro em 2027?

Atualizado em 29 de agosto de 2026

O crédito concedido pelo próprio comerciante respondeu por 15,52% do faturamento em 2025, contra 9,27% em 2023, segundo estudo da RPE divulgado em agosto de 2026. O preço aparece na carteira: o índice do Meu Crediário mediu 8,48% de inadimplência acima de noventa dias em fevereiro de 2026, contra 6,74% um ano antes. A conta fecha porque o banco recusou o cliente, com a Serasa Experian contando 83,9 milhões de negativados em julho de 2026.
Crédito da própria loja nas vendas, 202515,52% do faturamento (RPE)
Inadimplência do crediário, fev/20268,48% acima de 90 dias (Meu Crediário)
Tíquete no crédito próprio, ago/2026R$ 305,82 contra R$ 143,52 (RPE)
Negativados no país, jul/202683,9 milhões, 51,0% dos adultos (Serasa)

Esta folha serve ao dono de loja que vende no carnê e precisa decidir, em 2026, se continua financiando o próprio cliente em 2027. Você sai sabendo quanto o crédito da loja pesa nas vendas do varejo, qual inadimplência o mercado registra, quanto custa esse dinheiro e o que o início do split payment faz com o caixa. O caso que acompanha o texto é a Ótica Mendes, três lojas no interior de Minas, que fecha 45% das vendas no carnê e viu o atraso acima de noventa dias sair de 7% para perto de 10% em um ano.

Por que o carnê voltou para o balcão da Ótica Mendes?

O carnê voltou porque o banco recusou o cliente. A Serasa Experian contou 83,9 milhões de negativados em julho de 2026, 51,0% da população adulta, com acordo médio de R$ 761. A CNC mediu, em 6 de agosto de 2026, 82,0% das famílias endividadas e 29,8% com contas em atraso, e registrou o carnê de loja como segunda modalidade de dívida, presente em 16,1% delas, atrás do cartão de crédito, com 85,3%.

Na Ótica Mendes o efeito é direto: o cliente que quer uma armação de R$ 700 não passa na análise do cartão e passa na ficha da loja. O estudo da RPE divulgado pelo Estadão em 13 de agosto de 2026 mediu aprovação perto de 30% no crédito do próprio comerciante, contra 5% a 8% no bancário, com tíquete médio de R$ 305,82 contra R$ 143,52. Crediário próprio é a venda a prazo financiada pela loja, com o risco de calote inteiro no lojista.

O crediário do varejo em quatro números

15,52%do faturamento em crédito da própria loja, 2025RPE via Estadão, 13/08/2026
8,48%de inadimplência do crediário em fev/2026Meu Crediário, 03/03/2026
R$ 305,82tíquete no crédito próprio, contra R$ 143,52 no bancárioRPE via Estadão, 13/08/2026
16,1%das famílias endividadas têm carnê de lojaCNC, Peic, jul/2026
Fonte: RPE via Estadão, 13/08/2026; Meu Crediário via Money Report, 03/03/2026; CNC, Peic, 06/08/2026

Quanto o crédito da própria loja já pesa nas vendas do varejo?

Pesa 15,52% do faturamento. A RPE mediu essa fatia em 2025 numa amostra de mais de oitenta varejistas, contra 9,27% em 2023, avanço de quase 70% em dois anos. O mix se concentra em moda, com 58,77% do volume, seguida do ramo alimentar, com 26,75%, e de eletromóveis e construção, com 14,80%. A GMattos encontrou crediário direto em 37,3% das lojas online monitoradas em julho de 2025, em levantamento republicado pela Giro.Tech.

Por rede, o Varejo Finance Report 2026 mediu penetração de 54,2% na Quero-Quero e de 19% no Magalu no quarto trimestre de 2025. A leitura útil para uma rede pequena está na dispersão: quem vende durável de tíquete alto financia mais, e quem vende conveniência financia pouco.

Penetração do crédito próprio nas vendas, 4T25

  • Quero-Quero54,2%
  • Riachuelo31,1%
  • Renner28,7%
  • C&A27,8%
  • Casas Bahia21,6%
Fonte: Varejo Finance Report 2026, via Portal Sala da Notícia, 21/05/2026

Por que a inadimplência do crediário fica acima da bancária?

Fica acima porque a loja aprova exatamente quem o banco recusou. O índice do Meu Crediário mediu 8,48% em fevereiro de 2026, contra 6,74% em fevereiro de 2025, contando parcelas com mais de noventa dias de atraso sobre o total vendido a prazo. Em maio de 2026 o mesmo índice registrou roupas e calçados em 10,40%, óticas em 9,83% e móveis e eletro em 7,46%. A média anual do índice em 2025 ficou em 8,20%.

Três réguas circulam juntas na imprensa e medem coisas diferentes. O Banco Central mediu 4,9% de inadimplência acima de noventa dias no sistema financeiro em julho de 2026, recorde da série. A CNC mediu 29,8% de famílias com contas em atraso no mesmo mês, resposta de família em pesquisa domiciliar. O Meu Crediário mede parcela de carnê. Somar as três produz um número que não corresponde a nada.

Inadimplência do crediário por segmento, mai/2026

Roupas e calçados: 10,40%10,40%1Óticas: 9,83%9,83%2Móveis e eletro: 7,46%7,46%3Média do índice, 2025: 8,20%8,20%4
  1. Roupas e calçados10,40%
  2. Óticas9,83%
  3. Móveis e eletro7,46%
  4. Média do índice, 20258,20%
Fonte: Meu Crediário, índice de inadimplência, mai/2026; média de 2025 via CartaCapital, 09/11/2025

Quanto custa, de verdade, o dinheiro que você empresta ao cliente?

Custa o preço do capital de giro somado à perda esperada. O Banco Central registrou cerca de 64% ao ano no crédito livre não consignado às famílias em agosto de 2026, com a Selic ainda em dois dígitos, e o rotativo do cartão em 436,2% ao ano. No carnê a dispersão é enorme. Um cálculo publicado pelo Estadão em dezembro de 2025 apontou 29,9% ao ano no carnê de outubro de 2025, enquanto as demonstrações do segundo trimestre de 2026 do Grupo Casas Bahia registram taxa média contábil de 177,03% ao ano na carteira da rede.

A conta da Ótica Mendes tem quatro linhas: o dinheiro parado na carteira, a perda esperada, a cobrança e o imposto da venda, que sai antes de a última parcela entrar. Com prazo médio de recebimento de catorze meses, número que a Casas Bahia informa para o próprio carnê, cada real vendido a prazo fica mais de um ano fora do caixa da loja.

O que o caso Casas Bahia ensina sobre carteira grande e provisão curta?

Ensina que carteira de crédito precisa de provisão antes de precisar de venda. Em 30 de junho de 2026 o Grupo Casas Bahia informou carteira bruta de crediário de R$ 6,177 bilhões e provisão para perdas de 13,0% dela, contra 12,2% em 31 de dezembro de 2025. Em agosto de 2026 o grupo pediu recuperação judicial, com R$ 17,3 bilhões de passivos, e manteve o crediário como ativo estratégico.

Provisão para perdas é o dinheiro que a empresa separa no balanço para a parte da carteira que já não espera receber. A loja que deixa de provisionar lê como lucro aquilo que ainda é promessa de recebimento e descobre o buraco quando a safra vence. A primeira parcela em atraso de uma turma de contratos antecipa o comportamento das demais, e é por isso que a medição precisa ser por safra.

O calendário que mexe com o carnê

  1. ago/2026IBS e CBS na notaCampos obrigatórios na NF-e e na NFC-e em produção desde 3 de agosto; a rejeição automática está suspensa desde 31 de julho, sem data de retomada.
  2. ago/2026Crédito caro e escassoRotativo do cartão a 436,2% ao ano e 4,9% de inadimplência no sistema financeiro, recorde da série do Banco Central.
  3. dez/2026Contratos de BaaSQuem terceirizou o motor de crédito precisa adaptar contrato até 31 de dezembro, pela Resolução Conjunta nº 16/2025.
  4. 2027Split payment gradualComeça por operações entre empresas, sem alcançar venda a pessoa física nem empresa integralmente no Simples, e sem cartão de crédito nessa fase.
Fonte: Ato Conjunto RFB e CGIBS nº 4, 30/07/2026; Banco Central via Folha e IstoÉ Dinheiro, 28/08/2026; Celcoin, 11/02/2026; Folha, 25/08/2026

Cartão de loja ou carnê digital: qual cabe numa rede de três unidades?

O cartão de loja é produto de rentabilidade e pede escala. A Realize, financeira ligada à Renner, respondeu por 31,04% do lucro líquido consolidado do grupo em 2025, R$ 452 milhões, segundo o Varejo Finance Report 2026. Cartão private label é o cartão que só compra dentro da rede que o emitiu, operado por uma financeira do próprio grupo, e essa estrutura só se paga com base grande de clientes.

Para três lojas, o caminho realista é o carnê registrado e cobrado por meio digital. O Magalu informou em dezembro de 2025 que 80% dos clientes do crediário pagam a parcela por Pix. Há uma decisão jurídica embutida na escolha. Segundo a Celcoin, em fevereiro de 2026, o carnê financiado com capital da própria loja dispensa licença do Banco Central, e em troca impede ceder a carteira a um FIDC, o que obriga a montar CDC ou BNPL com parceiro autorizado.

Três réguas de inadimplência que não se somam

Crediário de varejo, 8,48%

  • Parcelas com mais de 90 dias de atraso
  • Base: total vendido a prazo na loja
  • Fevereiro de 2026, contra 6,74% um ano antes
  • Índice do Meu Crediário

Sistema financeiro, 4,9%

  • Operações de instituições autorizadas pelo Banco Central
  • Fora dessa base fica o carnê financiado pela própria loja
  • Julho de 2026, recorde da série desde 2011
  • A régua da CNC é outra: 29,8% de famílias com contas em atraso
Fonte: Meu Crediário via Money Report, 03/03/2026; Banco Central via Folha, 28/08/2026; CNC, Peic, 06/08/2026

O que muda no seu caixa quando o split payment começar, em 2027?

Muda o prazo do imposto, antes da parcela do cliente. Split payment é o mecanismo da reforma tributária que separa IBS e CBS no momento da liquidação do pagamento. A Folha publicou em 25 de agosto de 2026 que a fase de 2027 é gradual, começa por operações entre empresas, deixa de fora a venda a pessoa física e a empresa integralmente no Simples, e vale para boleto, TEF, TED e Pix, sem cartão de crédito. A LC 214, de 16 de janeiro de 2025, trata da segregação na liquidação nos artigos 31 e 35, sem fixar ano de obrigatoriedade.

O efeito sobre o carnê de pessoa física chega pelo caixa. A Peers Consulting analisou em maio de 2026 o fim do float fiscal, o intervalo de trinta a quarenta e cinco dias em que o tributo já cobrado fica na conta da empresa antes do recolhimento. Quem financia carnê com esse dinheiro perde a fonte de giro. Na emissão, os campos de IBS e CBS já são obrigatórios na NF-e e na NFC-e em produção desde 3 de agosto de 2026, e a rejeição automática por ausência deles está suspensa desde 31 de julho de 2026, sem data de retomada.

Que caminho de crédito cabe na sua loja

  • SeTíquete alto, cliente recorrente e menos de dez lojas
    entãoCarnê próprio registrado, com boleto e Pix, provisão mensal e taxa por faixa de risco
  • SeBase grande, marca forte e apetite por operação financeira
    entãoCartão de loja com financeira parceira, como fazem Renner e Quero-Quero
  • SeVenda online com tíquete médio e recompra frequente
    entãoBNPL de parceiro autorizado, presente em 62,7% das lojas online em 2025
  • SeSem medição de safra, sem provisão e sem contrato formal
    entãoSuspender a concessão até separar os registros no sistema de gestão
Fonte: Varejo Finance Report 2026, 21/05/2026; Celcoin, 11/02/2026

O que fazer com isso até o fim de 2027

A Ótica Mendes tem doze meses para transformar carnê em carteira administrada. São cinco movimentos, todos dependentes do sistema de gestão que a loja já usa.

  1. Separe os registros. Venda, documento fiscal, contrato, parcela, juros, multa, renegociação e baixa precisam ser linhas distintas. Enquanto tudo mora em contas a receber, a margem some dentro da receita.
  2. Meça por safra e por faixa de atraso. Acompanhe 30, 60 e 90 dias por mês de originação. O total em atraso esconde a piora recente atrás do histórico bom.
  3. Provisione todo mês. Use a curva de perda da própria loja e compare com os 13,0% que a maior carteira do país reservava em junho de 2026.
  4. Precifique pelo risco e pelo prazo. Taxa única para todo cliente subsidia o mau pagador com o dinheiro do bom. Amarre a taxa à faixa de score, ao valor de entrada e ao número de parcelas.
  5. Prepare a conciliação de 2027. Ligue pedido, documento fiscal, parcela e recebimento num vínculo rastreável, que é o mesmo encanamento exigido pelo split payment. Sistemas de gestão de varejo como o ERP Onclick guardam esse vínculo no cadastro, e a régua de cobrança precisa registrar consentimento e opt-out por causa da LGPD.

A decisão que sobra para o dono da Ótica Mendes é de preço. Se a carteira de R$ 900 mil roda a catorze meses e perde 10% acima de noventa dias, a taxa cobrada precisa cobrir capital, perda e cobrança antes de sobrar margem de ótica. Quando não cobre, o caminho é encurtar prazo, pedir entrada maior ou aprovar menos, e nenhum deles espera 2027.

Perguntas frequentes

Crediário próprio precisa de autorização do Banco Central?

Segundo a Celcoin, em fevereiro de 2026, o carnê financiado com capital da própria loja, sem emissão de CCB e sem cessão da carteira, não exige licença do Banco Central. A contrapartida é que essa carteira não pode ser cedida a um FIDC. Para estruturar CDC ou BNPL com cessão, a loja precisa de parceiro autorizado, com KYC, prevenção à lavagem de dinheiro e divulgação do custo efetivo total.

Qual inadimplência é normal no crediário de varejo?

O índice do Meu Crediário mede parcelas com mais de noventa dias de atraso sobre o total vendido a prazo e ficou em 8,48% em fevereiro de 2026, contra 6,74% um ano antes, com média de 8,20% em 2025. Em maio de 2026, roupas e calçados marcaram 10,40% e óticas, 9,83%. Comparar esse número com os 4,9% do sistema financeiro medidos pelo Banco Central em julho de 2026 mistura duas réguas diferentes.

Registro do cliente inadimplente no SCR: o que a loja pode fazer

O Superior Tribunal de Justiça decidiu em julho de 2026 que o registro no Sistema de Informações de Crédito não equivale a cadastro de negativados e exige apenas comunicação prévia ao cliente, conforme a Resolução CMN 5.037/2022. O envio ao SCR, porém, é feito por instituição autorizada pelo Banco Central, então a loja que opera carnê sem parceiro financeiro não alimenta essa base.

O split payment de 2027 vai atingir a venda no carnê para pessoa física?

Não nessa primeira fase. A Folha publicou em 25 de agosto de 2026 que o mecanismo começa gradual em 2027, restrito a operações entre empresas, fora do alcance da venda ao consumidor pessoa física e da empresa integralmente no Simples, com boleto, TEF, TED e Pix como meios iniciais. O impacto no carnê chega pelo caixa, com o encurtamento do prazo entre cobrar e recolher o tributo.

Manter o carnê com a inadimplência subindo

Depende do preço e do prazo, e a conta é verificável. Com aprovação perto de 30% no crédito da loja contra 5% a 8% no bancário e tíquete médio de R$ 305,82, medidos pela RPE em agosto de 2026, o carnê compra venda que o cartão recusa. A carteira só se sustenta quando a taxa cobre capital, perda esperada e cobrança, e quando a loja provisiona todo mês em vez de esperar o calote aparecer.

Fontes. Estadão, Fatia do crédito próprio nas vendas avança quase 70% em dois anos, estudo RPE, 13 de agosto de 2026; Agência Brasil, CNC, Peic de julho de 2026, 6 de agosto de 2026; Serasa Experian, Mapa da Inadimplência e indicadores econômicos, julho de 2026; Meu Crediário, Índice de Inadimplência do Crediário, maio de 2026; Money Report, Varejo tem 8,48% de inadimplência em fevereiro, 3 de março de 2026; Folha de S.Paulo, Banco Central, inadimplência atinge maior nível da série histórica, 28 de agosto de 2026; IstoÉ Dinheiro, juros do rotativo do cartão em 436,2% ao ano, 28 de agosto de 2026; Exame, o carnê das Casas Bahia e as demonstrações do 2T26, 16 de agosto de 2026; Portal Sala da Notícia, Varejo Finance Report 2026, 21 de maio de 2026; Folha de S.Paulo, microempresa fica fora do split payment em 2027, 25 de agosto de 2026; Peers Consulting, split payment e o impacto no caixa do varejo, 18 de maio de 2026; Planalto, Lei Complementar nº 214, de 16 de janeiro de 2025, 16 de janeiro de 2025; Celcoin, compliance de BNPL e crédito no varejo em 2026, 11 de fevereiro de 2026; Superior Tribunal de Justiça, registro no SCR não equivale a cadastro de negativados, 15 de julho de 2026