Esta página explica por que a fraude no cartão está caindo e, ainda assim, o financeiro tem mais trabalho para fechar a conta. Serve para quem concilia pedido, pagamento e repasse todo mês. Ao final, você sabe onde investir primeiro: segurança ou integração.
Por que as três telas do financeiro nunca batem
Pense numa loja de eletrônicos que vende celular pelo marketplace. Na sexta-feira em que o repasse cai na conta, o financeiro abre três telas que deveriam contar a mesma história. São elas: o pedido faturado no sistema de gestão, o extrato da adquirente, empresa que processa o pagamento do cartão, e o relatório de comissões da plataforma.
Quando as três divergem, a semana seguinte vira caça ao que virou estorno, ao que ficou retido por suspeita e ao que nunca foi conciliado.
Fraude com cartão, em pontos-base
A fraude perde participação enquanto o ataque ganha volume
Os dois indicadores mais citados apontam em direções opostas porque medem grandezas distintas. Um deles mostra o índice de fraude por valor transacionado no ambiente não presencial, compra feita sem o cartão físico presente. Esse índice caiu de 54,4 para 34,5 pontos-base entre o terceiro trimestre de 2022 e o mesmo trimestre de 2025, queda de 36,5%. Ponto-base é o valor de fraude dividido pelo valor aprovado.
O outro indicador contou mais de dez milhões de tentativas de fraude entre janeiro e setembro de 2025, alta de 28,6% na comparação anual.
Perder menos por real aprovado e apanhar mais vezes convivem sem contradição. O filtro melhorou enquanto a fila de ataque crescia.
O pedido recusado custa mais que o pedido fraudado
A régua de aprovação decide receita. O tíquete médio da fraude com cartões no mesmo período foi de R$ 263,50, e o tíquete médio do e-commerce brasileiro ficou em R$ 536,60.
As duas médias vêm de bases diferentes, mas mostram o mesmo ponto: a recusa indevida devolve um pedido inteiro à concorrência.
A taxa de chargeback, o estorno de uma compra contestada pelo cliente, só vira meta operacional com o denominador declarado. Contar sobre pedidos aprovados, sobre valor transacionado ou sobre uma única categoria produz três números diferentes para a mesma loja no mesmo mês.
Marcos da conciliação e do risco
- Junho de 2021Registro obrigatório de recebíveis de cartãoO recebível passa a servir de garantia para qualquer instituição credora.
- Junho de 2025Pix Automático entra em operaçãoA cobrança recorrente ganha liquidação instantânea, com calendário próprio na conciliação.
- Janeiro de 2026Pix Automático obrigatório para todos os bancosA modalidade deixa de depender da adesão de cada instituição.
- 26 de janeiro de 2026Adequação mútua de dados entre União Europeia e BrasilO fluxo de dados pessoais entre os dois blocos dispensa salvaguardas adicionais.
O caixa mudou de forma antes de o risco mudar
A conciliação, o trabalho de conferir se pedido, pagamento e repasse combinam, ficou mais difícil porque a venda passou a liquidar em três relógios diferentes.
O Pix respondeu por 50,2% dos pedidos e 41% do valor numa amostra de mais de cem mil lojas, e liquida na hora. O crédito concentra valor e prazo, com o parcelado sem juros em quase 43% do que passa no cartão. O repasse do marketplace segue o calendário próprio da plataforma.
A antecipação de recebíveis virou a válvula desse descompasso. Ela saltou de R$ 428,6 bilhões para R$ 614,9 bilhões em 2025, alta de 43% e três vezes o ritmo do próprio cartão de crédito. Desde 2021 o registro do recebível é obrigatório, o que permite oferecê-lo como garantia a qualquer instituição credora.
As quatro contas do financeiro
Dado de cliente virou infraestrutura de risco, com preço e com multa
Decidir aprovação em tempo real depende de histórico consolidado, e esse histórico tem preço declarado.
O mercado brasileiro de plataformas de dados de cliente deve crescer bastante nos próximos cinco anos. Deve sair de US$ 263,41 milhões para US$ 908,93 milhões, mais de 28% ao ano, com o varejo digital respondendo por perto de 27% do total.
O limite jurídico vem da LGPD (a lei que protege os dados do cliente e limita o que você guarda). A multa administrativa alcança 2% do faturamento no Brasil, com teto de R$ 50 milhões por infração.
Volte à loja de eletrônicos do início. A sexta-feira do repasse deixa de doer quando as três telas leem a mesma chave de pedido e a mesma data de liquidação. É trabalho de integração antes de ser trabalho de segurança, e o custo de adiá-lo aparece na margem, não no relatório de fraude.