Esta folha serve ao franqueado que opera uma ou mais lojas e ao gestor de rede que precisa comparar unidades. Ela mostra o tamanho e o ritmo do franchising brasileiro em 2025 e 2026, explica de onde veio o crescimento e detalha o que a reforma tributária cobra do contrato a partir de janeiro de 2027. O caso condutor é a Marina Belchior, dona de três lojas: duas de uma rede de alimentação em Campinas e uma de acessórios em Piracicaba, com três CNPJs, dois regimes tributários e um fechamento mensal feito em planilha.
Quanto o franchising faturou em 2025 e por que ele cresce acima do varejo restrito?
A ABF mediu R$ 301,7 bilhões de faturamento em 2025, alta nominal de 10,5% sobre os R$ 273,1 bilhões de 2024, o maior valor da série histórica, em pesquisa divulgada em março de 2026. No mesmo período, o IBGE mediu alta de 1,6% em volume no varejo restrito de 2025 e de 1,9% no primeiro semestre de 2026.
As duas medidas usam réguas diferentes: a ABF mede valor nominal, com inflação dentro, e o IBGE mede volume, com a inflação retirada. Mesmo com esse desconto, o setor rodou bem acima da média do comércio.
O ritmo continuou em 2026. O primeiro trimestre somou R$ 72,7 bilhões, alta de 10,1%, e o acumulado de doze meses chegou a R$ 308,4 bilhões, alta de 10,7%, conforme a ABF em 1º de junho de 2026. O emprego direto ficou perto de 1,788 milhão de pessoas.
O franchising brasileiro em 2025
Se o número de redes ficou parado, de onde veio o crescimento de 10,5%?
Veio da produtividade da loja. O faturamento médio mensal por operação chegou a R$ 124.203 em 2025, alta de 7,9%, segundo o relatório de desempenho da ABF referente ao quarto trimestre de 2025. O número de redes ficou praticamente estável em 3.297, e as operações subiram 2,4%, para 202.444.
As franquias já estão em 3.828 municípios, 69% das cidades brasileiras, segundo a ABF em 2026. A conta da Marina segue a mesma lógica: nenhuma das três lojas dela cresceu por metro quadrado novo, e sim por ticket, mix e canal.
A concentração explica parte do resultado. As 50 maiores redes associadas à ABF somam 53.005 operações, 37% do total do país. No Ranking ABF de 2025, a Cacau Show aparece com 4.713 operações, O Boticário com 3.898 e o McDonald's com 2.774.
Doze meses de crescimento em dois dígitos
- 2024R$ 273,1 bibase de comparação usada pela própria ABF no cálculo dos 10,5%
- 2025R$ 301,7 bialta nominal de 10,5%, maior valor da série histórica
- 1T26R$ 72,7 bitrimestre isolado, alta de 10,1%, com 204.908 operações
- jun/2026R$ 308,4 biacumulado de doze meses até o 1T26, alta de 10,7%
- 2026Projeção de 8% a 10%crescimento nominal projetado pela ABF, com redes de 2% a 4%
- 2027CBS substitui PIS e Cofinscarga das franqueadoras sobe cerca de 4,4 pontos, estima a ABF
Por que 88% das redes têm franqueados com mais de uma loja?
Porque o operador experiente escala mais barato que o candidato novo. A ABF informou ao Valor, em 25 de junho de 2026, que 88% das redes têm multifranqueados e que a parcela de franqueados com mais de uma marca subiu de 51% em 2024 para 62%. Cerca de um terço das operações do setor está nas mãos de quem administra mais de uma unidade.
Multifranqueado é o franqueado que opera mais de uma loja, às vezes de marcas diferentes. Para a franqueadora, a conversa deixa de ser com um dono de loja e passa a ser com um operador de portfólio, que compara margem entre bandeiras antes de investir na próxima unidade.
Para o sistema de gestão, isso vira exigência de arquitetura. A Marina precisa ver as três lojas consolidadas por grupo econômico e, ao mesmo tempo, separadas por CNPJ, com plano de contas comparável e o mesmo indicador de ruptura, ticket e conversão em cada uma.
Franquia e varejo restrito: réguas diferentes
Franchising (valor nominal)
- Alta de 10,5% no faturamento de 2025
- Alta de 10,1% no 1T26
- Faturamento médio por operação sobe 7,9%
Varejo restrito (volume)
- Alta de 1,6% em volume em 2025
- Alta de 1,9% no 1º semestre de 2026
- Medida sem inflação, pela PMC do IBGE
Quando o delivery é 22,5% do faturamento, quem é o dono do cliente?
A pesquisa ABF/Galunion de agosto de 2026 mediu delivery em 90% das redes de alimentação, com participação média de 22,5% do faturamento, em amostra de 62 redes e cerca de 16 mil pontos de venda. O franchising de alimentação faturou R$ 79,862 bilhões em 2025, alta de 15,6%.
Um quinto do faturamento entrando por aplicativo de terceiro muda o contrato. Comissão, prazo de repasse, responsabilidade por pedido cancelado e propriedade do cadastro do consumidor precisam estar escritos, e o dado de venda precisa voltar para o sistema da loja com o mesmo detalhe do cupom do balcão.
O cardápio também se move. A mesma pesquisa registrou que os análogos de GLP-1, os medicamentos emagrecedores, já impactam o cardápio de 53% das franquias de alimentação, o que altera mix, ticket e planejamento de compra da Marina para 2027.
O pedido nasceu no site da marca e sai do seu estoque: quem paga o quê?
Essa é a operação de envio a partir da loja, quando o pedido feito no canal digital da marca é separado e enviado pelo estoque de uma unidade franqueada, no lugar do centro de distribuição. Cinco definições precisam sair automáticas do sistema: quem emite a nota, de qual estoque sai a peça, qual estado recebe o imposto, quanto o franqueado ganha e quem arca com a devolução.
O piso digital do grande varejo já subiu. O ranking IRTT divulgado em agosto de 2026 aponta que 226 das 300 maiores varejistas do país têm e-commerce próprio, e que drogarias, perfumarias, óticas e joias chegam a 100% de penetração digital. O mesmo levantamento registra R$ 1,3 trilhão movimentados por essas 300 redes em 2025.
Sem regra automática, o acerto vira planilha todo mês e a loja trata o pedido do site como interrupção do balcão. Com regra parametrizada, o estoque da Marina vira ponto de entrega da rede e ganha giro.
As maiores redes por operações
Como administrar três CNPJs, dois regimes e dois estados sem perder crédito?
O primeiro ponto é a estrutura societária. CNPJ próprio por unidade preserva o limite isolado de R$ 4,8 milhões por ano no Simples Nacional, enquanto a filial consolida receita e compartilha risco entre as lojas. A escolha muda alíquota, obrigação acessória e capacidade de tomar crédito.
O segundo é a parametrização por CNPJ, e nunca por rede. Uma unidade no Simples e outra no Lucro Presumido, em estados distintos, exigem regras fiscais próprias no mesmo sistema. O IBS é cobrado no destino, conforme a Emenda Constitucional 132, de 20 de dezembro de 2023, e a Lei Complementar 214, de 16 de janeiro de 2025, o que obriga a rede multiestado a enxergar imposto por unidade.
O terceiro é a comparação entre lojas. Ticket, conversão, ruptura, margem e devolução por unidade sustentam a negociação com a franqueadora e a prioridade na reposição.
Delivery no franchising de alimentação
- Redes com delivery90%amostra de 62 redes e cerca de 16 mil pontos de venda
- Fatia do faturamento22,5%participação média do canal nas redes pesquisadas
- Cardápio afetado por GLP-153%franquias que já ajustaram itens do cardápio
O que muda nos royalties e na margem da rede quando a CBS entra cheia em 2027?
Royalties e taxas de franquia são tributados hoje na faixa de 11,33% a 15,33% pelo ISS municipal, segundo levantamento publicado pelo Valor em 25 de junho de 2026. A ABF estima alta de cerca de 4,4 pontos percentuais na carga das franqueadoras a partir de 2027, com carga projetada perto de 28% no regime pleno, e pleiteia redutor que a levaria para cerca de 21%.
Do lado do franqueado, a contrapartida é o crédito. Quem está fora do Simples Nacional passa a tomar crédito de IBS e CBS, inclusive sobre royalties, o que reduz o efeito da alta na ponta da loja. Quem está no Simples fica sem esse aproveitamento e precisa refazer a conta antes de renovar o contrato.
O calendário já está correndo. Os campos de IBS e CBS são obrigatórios na NF-e e na NFC-e em produção desde 3 de agosto de 2026, com a rejeição automática suspensa e sem data de retomada. Em 2027 a CBS substitui PIS e Cofins, e o split payment começa de forma gradual pelas operações entre empresas, sem data oficial para as fases obrigatórias.
Venda no site da marca, retirada na loja franqueada
- SeA nota sai do CNPJ da lojaentãoo faturamento entra na receita do franqueado e conta para o limite do Simples, com royalties incidindo conforme o contrato
- SeA nota sai da franqueadora e a loja só entregaentãoo franqueado recebe taxa de serviço, e o imposto segue a UF do destinatário pela regra do IBS
- SeO estoque usado é da loja e o repasse é manualentãoo acerto vira planilha mensal, e a unidade perde giro sem enxergar quanto ganhou
- SeA regra está parametrizada no sistemaentãonota, estoque, comissão, imposto por UF e devolução saem automáticos em cada pedido
O que fazer com isso antes de janeiro de 2027
A Marina tem um trimestre para sair da planilha. A sequência abaixo vale para qualquer franqueado com mais de uma unidade e para a franqueadora que quer comparar a rede.
- Consolide os CNPJs no mesmo sistema. Visão por grupo econômico e por loja, com plano de contas comparável entre as unidades.
- Parametrize o fiscal por unidade. Regime, estado e classificação de IBS e CBS por CNPJ, já que os campos saem na nota desde 3 de agosto de 2026.
- Escreva a regra do pedido digital. Emissor da nota, estoque de origem, remuneração do franqueado e responsável pela devolução, tudo aplicado automaticamente.
- Traga o delivery para dentro do sistema. Com 22,5% do faturamento médio no food service medidos pela ABF/Galunion em agosto de 2026, esse canal precisa de conciliação item a item.
- Refaça a conta do contrato com a CBS cheia. Simule royalties, fundo de propaganda e crédito tributário no cenário de 2027 antes da próxima renovação.
Feita a simulação, a decisão da Marina passa a ser mensurável. Ela consegue dizer quanto custa manter a loja de Piracicaba fora do mesmo sistema das duas de Campinas, quanto de crédito de IBS e CBS deixaria na mesa em 2027 e quanto de faturamento de delivery está entrando sem conciliação hoje.