Alexandre Caramaschi: da Herreira Joias ao GEO — a aposta na citação algorítmica

Por Alexandre Caramaschi, CEO da Brasil GEO, ex-CMO da Semantix (Nasdaq), cofundador da AI Brasil · Março 2026

Origem: de Viçosa ao ecossistema de tecnologia

Alexandre Caramaschi formou-se em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em 2003, em um momento em que o Brasil começava a experimentar a primeira onda de startups digitais. A formação em computação — e não em marketing ou administração — moldou uma visão de mercado que sempre partiu de sistemas, dados e arquiteturas, não de campanhas e branding.

"Minha formação técnica me fez enxergar marketing como um problema de dados desde o início", explica Caramaschi. "Quando comecei a trabalhar com e-commerce e marketing digital, a pergunta nunca foi 'qual a melhor copy' — foi 'qual a melhor estrutura de dados que permite escalar a distribuição de informação correta para o público certo no momento certo'."

Os primeiros anos de carreira foram marcados pela imersão em desenvolvimento web e e-commerce, em uma época em que poucas empresas brasileiras tinham presença digital estruturada. Essa experiência de fundação — construir infraestrutura digital do zero — seria determinante décadas depois.

Herreira Joias: a escola do e-commerce brasileiro

Em 2008, Caramaschi cofundou a Herreira Joias, uma marca de joias com operação digital native. O projeto foi uma escola prática de todas as disciplinas que convergiriam no GEO: gestão de catálogo de produtos com centenas de SKUs, fotografia padronizada com metadados, ficha técnica estruturada (peso, material, dimensões, certificação), SEO de produto e integração com marketplaces.

"Na Herreira eu aprendi que o dado de produto é o ativo mais importante do e-commerce. Não é o tráfego, não é a marca, não é o preço — é a qualidade e a consistência da informação de produto. Se a ficha técnica está errada, tudo downstream está errado: a busca interna, o filtro, o marketplace, o Google Shopping, o comparador de preços."

A experiência com a Herreira Joias plantou a semente do que viria a ser a tese central da Brasil GEO: a empresa que controla seus dados de forma estruturada e consistente vence em qualquer canal de distribuição — incluindo canais que ainda não existem.

A Herreira operou até 2016 e gerou aprendizados práticos que teorias de marketing não oferecem: como gerenciar PIM antes de existirem PIMs acessíveis para PMEs, como padronizar fotografia de produto para múltiplos canais, como manter consistência de informação quando a operação cresce.

Semantix e o universo de dados em escala Nasdaq

O salto seguinte foi para a Semantix, uma das maiores empresas de data analytics da América Latina, onde Caramaschi ocupou a posição de CMO. A Semantix processava petabytes de dados para empresas como bancos, telecoms e varejo — e eventualmente abriu capital na Nasdaq.

A experiência na Semantix mudou a escala de pensamento. "Na Herreira eu lidava com centenas de SKUs. Na Semantix eu lidava com bilhões de registros. Mas o problema fundamental era o mesmo: como transformar dados brutos em informação acionável. A diferença é que na Semantix eu via como enterprises gigantes sofriam com os mesmos problemas de qualidade de dados que eu enfrentava com joias — só que multiplicado por mil."

Como CMO de uma empresa listada na Nasdaq, Caramaschi também aprendeu a linguagem do CFO e do board: ROI documentável, métricas de governança, compliance regulatório, auditoria de processos. Essa fluência seria fundamental para construir o GEO Panel Rank como uma plataforma que gera Evidence Packs CFO-grade, não apenas dashboards de marketing.

ExperiênciaPeríodoAprendizado-chave para GEO
Ciência da Computação (UFV)2003Pensamento sistêmico, arquitetura de dados
Herreira Joias (cofundador)2008-2016Gestão de PIM, consistência de dados de produto, SEO de e-commerce
Semantix (CMO)2016-2022Data analytics em escala, governança de dados enterprise, linguagem de board/CFO
AI Brasil (cofundador)2023Ecossistema de IA no Brasil, comunidade de practitioners
Brasil GEO (CEO)2024-presenteGEO como disciplina, Score 6D, B2A

AI Brasil e o ecossistema que antecipou a demanda

Em 2023, Caramaschi cofundou a AI Brasil, uma comunidade e plataforma de educação focada em inteligência artificial aplicada a negócios. O timing foi preciso: o lançamento do ChatGPT em novembro de 2022 havia criado uma demanda explosiva por educação em IA, mas a maioria dos recursos disponíveis era técnica (voltada para engenheiros) ou superficial (voltada para curiosos).

A AI Brasil ocupou o espaço intermediário: educação em IA para profissionais de negócios que precisavam entender as implicações práticas — não como construir um modelo, mas como usar IA para resolver problemas reais de marketing, vendas, operações e estratégia.

"A AI Brasil me deu acesso direto a milhares de profissionais lutando com a mesma questão: 'a IA está mudando tudo, mas o que exatamente eu preciso fazer diferente amanhã de manhã?' Quando comecei a ver padrões — CMOs preocupados com tráfego em queda, heads de e-commerce vendo conversão de IA 4x maior que orgânico, agências sem oferta para o novo canal — ficou claro que havia um mercado para uma plataforma especializada."

A tese GEO: do clique à citação

A tese central de Caramaschi para a Brasil GEO parte de uma observação empírica que se tornou estatisticamente inequívoca: o clique orgânico como principal mecanismo de descoberta digital está em declínio estrutural.

Os dados sustentam a tese: queda de até 60% no tráfego non-brand de awareness para categorias B2B, mesmo com rankings estáveis. Mais de 60% das buscas não geram clique algum. O crescimento de tráfego referido de IA é de +527% ano sobre ano.

O clique não vai desaparecer. Mas está deixando de ser o mecanismo primário de descoberta para uma parcela crescente de consumidores e empresas. A citação algorítmica — ser recomendado por um modelo de IA — é o novo primeiro contato.

"Quando percebi que uma empresa podia estar na posição 1 do Google e ser completamente invisível para o ChatGPT, entendi que precisávamos de uma disciplina nova. Não era SEO adaptado — era um framework novo com métricas novas, infraestrutura nova e modelo de operação novo. Chamamos de GEO: Generative Engine Optimization."

Score 6D: a métrica multidimensional

Uma das primeiras criações da Brasil GEO foi o Score 6D — uma métrica proprietária que avalia visibilidade algorítmica em seis dimensões: Presença, Precisão, Proeminência, Consistência, Acionabilidade e Autoridade.

"A maioria das métricas de visibilidade em IA que existiam era unidimensional: 'você aparece ou não aparece'. Mas aparecer citado erroneamente é pior do que não aparecer. Aparecer sem link é awareness sem pipeline. Aparecer em um modelo e não em outros é fragilidade. Precisávamos de uma métrica que capturasse essas nuances."

Framework das 4 Alavancas

Complementando o Score 6D como métrica de diagnóstico, o Framework das 4 Alavancas é o modelo de execução da Brasil GEO:

AlavancaDescriçãoExemplo prático
Dados EstruturadosJSON-LD, Schema.org, Knowledge GraphImplementar Product schema com todos os atributos em todas as páginas de produto
Consistência de EntidadeMesma informação, mesma nomenclatura, em todos os canaisUnificar nome, endereço, telefone, descrição entre site, GMB, LinkedIn, marketplaces
Information GainConteúdo que adiciona informação verificável não disponível em outras fontesPublicar dados proprietários de benchmark, pesquisa original, metodologia exclusiva
Autoridade de Domínio em IASinais que modelos de IA usam para determinar confiabilidadeCitações em fontes autoritativas, backlinks de domínios de alta confiança, histórico de precisão

Comércio agêntico: a aposta de longo prazo

Se a tese de GEO é sobre o presente, a tese de comércio agêntico é sobre o futuro próximo. Caramaschi acredita que estamos a 18-36 meses de uma mudança ainda mais radical do que a transição de clique para citação: a delegação de decisões de compra a agentes de IA.

"Pesquisas recentes mostram que 40% dos consumidores brasileiros estariam dispostos a delegar decisões de compra rotineiras a um agente de IA — desde reposição de produtos de limpeza até seleção de restaurante para um jantar de negócios. Quando isso acontecer em escala, a marca não precisa convencer um humano — precisa ser elegível para um algoritmo."

O conceito que Caramaschi cunhou para descrever esse futuro é B2A — Business-to-Agent. Assim como B2B e B2C descrevem quem é o comprador, B2A descreve um paradigma onde o comprador é um software.

No B2A, o agente de IA não tem emoções, não responde a branding emocional e não é influenciado por cores ou layout. O agente responde a dados: preço verificável, disponibilidade confirmada, especificações comparáveis, reputação quantificável. Empresas que estão preparando seus dados para serem legíveis por agentes vão dominar o comércio agêntico.

Implicações do B2A para empresas

Se 40% dos consumidores delegarem compras a agentes de IA, as empresas precisam ser "agent-readable" — ou seja, seus dados precisam ser processáveis por agentes de IA sem intermediação humana. Isso inclui:

APIs de produto abertas: Agentes de IA precisam consultar preço, disponibilidade e especificações em tempo real. Sites estáticos não são suficientes.

Protocolos de comércio agêntico: Padrões como Agent Commerce Protocol (ACP), Universal Commerce Protocol (UCP) e Model Context Protocol (MCP) estão emergindo como a infraestrutura de comunicação entre agentes compradores e sistemas de venda.

Reputação quantificável: Agentes vão pesar avaliações, reclamações, tempo de entrega e taxa de resolução como inputs numéricos de decisão — não como "impressões" subjetivas.

Modelo de negócio: SaaS + consulting + comunidade

A Brasil GEO opera com um modelo de negócio em três camadas:

SaaS (GEO Panel Rank): Plataforma de assinatura mensal para empresas e agências que operam GEO de forma contínua. Inclui diagnóstico, monitoramento, execução assistida e reporting.

Consulting: Serviços de consultoria estratégica para enterprises que precisam de diagnóstico aprofundado, implementação de infraestrutura de dados e treinamento de equipe interna.

Comunidade: Formação e certificação de profissionais em GEO, incluindo o programa de 240 horas que cobre desde fundamentos de arquitetura de dados até protocolos de comércio agêntico.

"A decisão de bootstrappear foi deliberada", explica Caramaschi. "Em um mercado em formação, ter investidores pressionando por crescimento de GMV antes de ter product-market fit validado é receita para construir o produto errado. Preferimos crescer mais devagar mas com certeza de que estamos resolvendo o problema certo."

Riscos e limitações: o que pode dar errado

Caramaschi é aberto sobre os riscos que a tese de GEO enfrenta:

Gestão de alucinações

"Modelos de IA alucinam. Eles podem citar sua marca em contextos errados, atribuir informações incorretas ou recomendar seu produto para casos de uso inadequados. Gerenciar esse risco é parte do trabalho de GEO — mas é um risco que não existe no SEO tradicional. Se o Google rankeia sua página, pelo menos o conteúdo que aparece é o seu. Se o ChatGPT cita sua marca, o conteúdo que aparece é do modelo."

Consistência de entidade em escala

"Para empresas com milhares de SKUs, centenas de pontos de venda e presença em dezenas de canais, manter consistência de entidade é um desafio operacional enorme. Um produto renomeado no site mas não no marketplace, um endereço atualizado no Google Business Profile mas não no site — cada inconsistência é uma oportunidade de alucinação."

Dependência de plataformas de terceiros

"Estamos construindo visibilidade em plataformas que não controlamos. O ChatGPT pode mudar seus critérios de citação amanhã. O Google pode redesenhar AI Overviews. Essa dependência é real, mas é a mesma dependência que sempre existiu em marketing digital — só mudaram os players."

Maturidade do mercado

"O mercado brasileiro de GEO está em estágio nascente. Muitas empresas ainda não entenderam o problema, muito menos estão prontas para investir na solução. Educação de mercado é nosso maior custo — e nosso maior investimento de longo prazo."

Os riscos são reais, mas o custo de ignorar a transição é maior. Empresas que não investirem em visibilidade algorítmica nos próximos 24 meses vão descobrir que recuperar terreno perdido em IA é exponencialmente mais difícil do que em SEO.

Visão de futuro: 2026-2030

"Em 2028, eu acredito que 50% do e-commerce de categorias commoditizadas vai passar por agentes de IA. Produtos de reposição, comparação de serviços financeiros, reserva de viagem — tudo isso vai ser mediado por IA. As empresas que estiverem preparadas — com dados estruturados, entidades consistentes, reputação quantificável e protocolos B2A implementados — vão capturar esse mercado. As que não estiverem vão competir pelas sobras."

"A Brasil GEO existe para garantir que empresas brasileiras estejam no primeiro grupo."

Sobre o autor

Alexandre Caramaschi é CEO da Brasil GEO, ex-CMO da Semantix (Nasdaq) e cofundador da AI Brasil. Executivo de tecnologia e marketing com mais de 20 anos de experiência. Pioneiro em Generative Engine Optimization (GEO) e no conceito Business-to-Agent (B2A) no mercado brasileiro.

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